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Noite de Natal de um Mendigo


Por: aline mamede


Esperando a generosidade de quem passa, ali estou eu sentado no passeio da rua, assistindo ao vai e vem de pessoas apressadas que levam nas mãos os últimos presentes de Natal.
Indiferentes a um pobre velho, ostentam bonitos embrulhos e sacos de fantasia, adornados com fitas coloridas que lhe dão um certo requinte e a certeza de agradar quem os vai receber.
Subi a gola da gabardina já coçada e também um pouco suja, admito, está suja, o que para mim já não importa! É a gabardina que uma senhora me ofereceu o ano passado pelo Natal e também o único agasalho que tenho para me proteger da chuva! Ajeito o bocado de cartão onde estou sentado e que minimiza o frio da calçada. Encosto a cabeça à parede, acaricio levemente nas minhas barbas, cruzo as mãos sobre o meu peito, fecho os olhos e aí, o meu pensamento ultrapassa a fronteira do impossível, despertando os meus sentidos há tanto tempo adormecidos!
É nesse momento que, através do meu subconsciente recuo muitos anos, e viajo para muito longe. Não sei por onde andei, apenas sei, que eu sorria perante uma mesa recheada de boas iguarias, minhas narinas regalavam- se com os aromas tradicionais e minha boca salivava com o bacalhau, as couves e rabanadas, enquanto meu corpo se aquecia com o calor que vinha da lareira, cujo fogo crepitava fazendo arder o tronco de onde saltavam fagulhas que subiam em direcção à chaminé.
De repente, pareceu-me ouvir uma campainha. Abri os olhos. Oh que desilusão! Foi o tilintar de uma moeda de 50 cêntimos deixada cair por alguém, dentro da caixa metálica que prendo entre meus joelhos.
Foi esta pequena moeda que me fez voltar à minha realidade. Ainda um pouco tonto, vi que a rua já estava vazia de transeuntes. Senti um desalento que não sei explicar. Era a confirmação de como foi longo o tempo que demorou o meu sono e o meu sonho.
A noite está fria, cada vez mais fria e o meu corpo está gelado. Agarro a minha bengala e o saco de plástico com algumas migalhas e com alguma dificuldade levantei-me. Olho à minha volta. Além do silêncio e do frio, há montras bonitas e bem decoradas com árvores de Natal a cintilar. Por cima da minha cabeça, dezenas de lâmpadas em forma de anjos e trenós multiplicam-se enfeitando toda a rua, mas tudo é artificial e foi aí que senti a descrença do Natal, porque eu continuo só, perdido na solidão interior, sem ter nada que ilumine a minha alma e porque um homem também chora, meus olhos deixaram escapar algumas lágrimas que já não têm idade.
Afinal é Natal!
De estomago vazio, passos lentos e arrastados, triste e sozinho, mais sozinho que nunca, caminho em direcção ao meu abrigo, um local mais sossegado debaixo de uma arcada a uma distância de dois quarteirões. É este o espaço que partilho com mais dois companheiros que, tal como eu, são desprovidos da sorte, mas não de solidariedade. Além do espaço, partilhamos a comida, as esmolas, e também as histórias da nossa vida que até são parecidas. Em comum, os anos que já nos fugiram, a família e os amigos que perdemos, os amores dos nossos verdes anos, a saudade de um banho quente, o conforto de um tecto, e até o facto de termos trabalhado como qualquer cidadão, num país que é o nosso, mas onde nos sentimos ignorados e olhados com desdém por gente sem piedade.
O sono espreita e sem candeeiro para apagar, deito-me na minha cama feita de uma caixa de papelão, tapo-me com um cobertor também ele tão velho como eu ou quase, e vertendo mais uma lágrima dos meus olhos semicerrados, pronuncio baixinho só para mim:
Já perdi o conto das noites de Natal que já não tenho!


Mendigo

Sou olhado sem respeito
Porque na rua me deito
Que é meu mundo de ilusão
Ninguém sabe qual o perigo
Que espreita um sem-abrigo
Nas longas noites de solidão

Aline Mamede ( conto editado em livro)

 

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