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ALESSANDRA LELES ROCHA
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Por detrás das fantasias e adereços
Por: ALESSANDRA LELES ROCHA




Não sei até que ponto os encantos pelo Carnaval advém da tradição cultural do país ou se a sua permanência é fruto de inúmeros apelos comerciais e do apreço pelo ócio nacional. Seja qual for a razão, a verdade é que a cada ano a alegria motriz da festa me parece mais artificial.
É, se o Carnaval pudesse de fato consumir com todas as mazelas do mundo, ou pelo menos do Brasil, como em um passe de mágica, seria mesmo sensacional. Mas, ao irem para a avenida, ou para as ruas, ou clubes sociais, as pessoas, ainda que vestidas com suas fantasias e adereços, não têm como dissociarem o que está impregnado no fundo da alma.
Sair de casa para se divertir e espairecer as tristezas e as amarguras sempre foi um bom pretexto para muita gente; mas, a questão é se realmente a eficácia se comprova ou se trata de mero efeito placebo.
Uma felicidade agendada no calendário e, de repente, as pessoas começam a acreditar que precisam sorver suas vidas de uma vez só, inebriadas por um entusiasmo sem controle, o qual chega a assustar.
Ninguém questiona o direito ao lazer, à diversão. Mas, a dimensão da artificialidade emocional e dos excessos presentes no período carnavalesco é que despertam a reflexão para um movimento social, há muito, preocupante.
Esse “despertar” exacerbado e repentino de felicidade, que se traduz por sentimentos libertários e libertinos, aponta para a dimensão da incapacidade das pessoas em conduzir com equilíbrio os altos e baixos da vida, o curso natural do cotidiano.
Em tempos conturbados como os atuais, quatro dias dispostos no calendário para “fugir da realidade” parecem tentadores; mas, são tão insuficientes que podem, até, deixar uma ressaca física e moral bem mais acentuada do que se imaginaria.
Afinal, a disseminação dos problemas sociais e de seus impactos alcançou níveis incapazes de serem ofuscados pelo movimento de qualquer folia ou repique das percussões. O limite entre a euforia e o desespero está por um triz.
Enquanto se deixam envolver por esses 5760 minutos de diversão, a verdade é que há uma opção voluntária por não enxergar os outros 361 dias do ano, os quais deveriam lhes ser pródigos de alegria restauradora para enfrentar os desafios; mas, não são.
A cultura nacional, em outras vertentes da sua diversidade de expressão, por exemplo, já não é mais acessível a grande maioria por diversas razões. E isso é apenas a ponta do iceberg.
Observando com atenção e isenção, é fácil constatar como o Carnaval, então, ressalta aos olhos de qualquer cidadão os problemas nacionais. Aliás, não é porque é Carnaval que essas questões ganham contornos mais amenos, de eventuais excentricidades, não.
Vejam que a carência da infraestrutura local, capaz de garantir a segurança e a tranquilidade de ir e vir ao cidadão, é comum no Reinado de Momo. Mas, é possível incluir, também, a precariedade dos serviços de saúde, das estradas e rodovias, da segurança, do transporte, enfim... Exatamente, tudo aquilo que se convive diariamente.
A única diferença é a capacidade de potencialização desses problemas em um breve recorte de tempo e a irresponsabilidade do ser humano, tornando o difícil algo impossível de suportar. Carnaval não é, nem nunca foi, passaporte para desrespeitar a ordem social; mas, há muita gente que pensa o contrário.
No fim, a vida é bem mais do que o Carnaval, que o instante da euforia, que os subterfúgios para as nossas fraquezas, que os pretextos e artifícios, que a praticidade da alienação,... então, saber discernir o que é realmente diversão acaba sendo fundamental; porque, já dizia Pablo Neruda, “você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências”.

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