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Pedro de Jesus Júnior
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Crônica
 
O FIM PODERIA SER DIFERENTE
Por: Pedro de Jesus Júnior

  Na cabine daquela carreta carregada, Murilo, 25 anos, natural e morador de Diamantina / MG, dirigia, absorto em seus próprios pensamentos, embalado pelo agradável ronco do motor do possante   com o qual trabalhava a 2 anos, uma Mercedes Benz 1935 trucada, que naquele início de noite, transportava 33 toneladas de carga, que seria entregue na cidade de Serro, 89 km depois da cidade onde ele reside. De um pen drive inserido no USB do som, ele ouvia as músicas que mais gostava, suas mais fiéis companheiras de viagem.
   Recordava com saudade, do beijo da mulher amada, seus carinhos. Não
Via a hora de vencer a distância que o separava dela, regressando aos
Seus braços.
  Pensou com carinho na mãe, que a dias não via, e que amava profundamente.
  Pelos olhos atentos do caminhoneiro, passavam as paisagens à margem
Da rodovia.
  A noite já caíra de todo, e contando Pedro de Jesus Júniorchegar em casa ainda
naquele dia, ele estava contente.
  Embora imerso em seus pensamentos, ele não se permitia deixar escapar nenhum detalhe, mantendo-se atento a tudo à sua volta.
  Percebeu quando um veículo que vinha em direção contrária fez-lhe sinal
Que havia algum problema à frente, e maneirou a velocidade,
Preparando-se para o que possivelmente, viria. Depois daquele veículo
Que sinalizara, outros motoristas também o fizeram. Imaginando que teria
atrasos, ele decepcionou-se. Contava dormir em casa, entregar a carga da manhã seguinte, retirar os dois dias de descanso que tinha direito pelo cronograma da empresa.  havia mais de 20 dias que ele se achava distante do lar, e ele se encontrava saudoso da família amada.
Agora o caminhão atravessava uma reta longa, e por ela não andou muito
tempo, até que o jovem deparou-se  com o  motivo pelo qual os outros motoristas
sinalizaram. Uma fila de carros se encontrava parada logo à frente, formando um engarrafamento.
  Exatamente naquele momento, um carro baixo o ultrapassara, em
altíssima velocidade. O condutor daquele veículo, ciente que não
conseguiria evitar o acidente, pisou fundo no freio entrando entre o carreteiro e um carro baixo, num espaço muito apertado, atingindo o acostamento. Pneus cantaram, e por milímetros, ele não atingiu a traseira do carro parado, que conseguira evitar, talvez por motivo inexplicável. Mas a manobra não lhe
valeu muito. Tendo seu condutor naquele momento perdido o controle da
Direção, o carro saiu da pista, indo capotar em um barranco, à margem
Da rodovia.
  Assustado, O carreteiro parou, puxou o manete, travando a carreta e
ligou o pisca-alerta. Desceu imediatamente da cabine, correndo ao local,
onde pela última vez vira o veículo acidentado.
  Havia mato abundante, e ao chegar à beira do precipício, já junto com
outros motoristas, curiosos para saber o que havia ocorrido, ele não
pôde ver muita coisa. Mas logo alguém trouxe uma lanterna.
Iluminando o caminho, ele começou a descer
a íngreme encosta, e não demorou muito
para localizar o veículo, capotado. Já com uma criança nos braços, um
homem pedia socorro, com a roupa completamente ensangüentada.
Correndo pra ele, quase desequilibrando-se, o carreteiro tomou a
criança dos seus braços. Percebeu que ela se encontrava muito ferida, e
começou a subir o barranco, o mais depressa possível, afim de pedir
socorro para o homem, que certamente, conduzia o veículo. Outros
motoristas, passaram por ele descendo, lanternas nas mãos, e ele
pedira-lhes ajuda. Dizia que havia pelo menos mais um homem.
Atravessando a pista com a criança nos braços, ele pediu a outro
motorista que conduzisse a criança a um hospital, pois aparentemente, a
situação era realmente grave. Acomodando aquele pequenino ser, que não
parecia ter mais que 6 anos de idade no banco detrás, no colo da jovem
filha do motorista que prestaria o socorro, ele voltou ao local do
acidente.
O condutor do veículo acidentado, aparentemente em choque, não sofrera ferimentos
Graves. Sua esposa, havia sido retirada por outros motoristas, e
acabava de acordar, mas também não parecia grave.
  Ainda, no local do acidente, aqueles motoristas  descobriram que embora o
casal tivesse usando o sinto de segurança, a criança, que havia sido
arremessada para fora do veículo durante o capotamento, estava no banco
traseiro, e não fazia uso do equipamento.
  O casal foi levado ao hospital, já por uma viatura do corpo de
bombeiros, que chegara logo após o menino ter sido socorrido. Foi
constatado também que o trânsito estava parado, devido a um outro
acidente, sem conseqüências graves, entre 2 caminhões, que bloqueara
um dos,  sentidos da rodovia.
O trânsito ainda não havia sido liberado, quando a notícia da morte do
menino chegou até o local do fato através de um dos policiais rodoviários que se encontrava ali. A tristeza abatera-se sob os
corações daqueles que presenciaram aquela cena triste, ao saber que o
pequenino, não resistira aos ferimentos.
Logo, a pista foi liberada no sistema páre e siga, e Murilo, tendo seu uniforme ainda muito ensangüentado pelo sangue do inocente que
perdera a vida em mais uma tragédia na estrada, voltou à cabine da
carreta, colocando o motor em funcionamento.
  Enquanto dirigia, agora sem conseguir expressar sua indignação e revolta, ele ponderava:
- Para quê tanta correria?
- Se os motoristas que trafegavam no sentido contrário sinalizaram, como aquele homem não se apercebera do perigo eminente?
- Porquê não seguir as leis de trânsito?
-Porquê não obedecer ao limite de velocidade, estipulado para o trânsito naquele local?
- Porquê o menino se encontrava sem o sinto de segurança?
- Aquela vida inocente, teria se perdido se estivesse protegida pelo equipamento de segurança, que por lei é obrigatório a todos os ocupantes do veículo? E se seu pai não estivesse em velocidade acima da permitida?
- Se alguém não tem amor pela própria vida, por quê motivo não ter por aqueles a quem Deus nos confiou à responsabilidade?
- Será mesmo que este fim, não poderia ser diferente?
  Perdido em ponderações, o carreteiro sabia que jamais, em toda a sua vida, esqueceria aquela noite fatídica.
  O sangue daquele inocente que tentara salvar, presente em seu uniforme, em suas mãos, mesmo ele as tendo lavado antes de regressar ao volante, o recordaria eternamente daquela imprudência, que custara a vida de um ser que poderia ter ainda uma bela história pela frente. Puxando o sinto, afivelou-se e pisando fundo, continuou sua jornada. Queria chegar logo, tirar aquele uniforme ensangüentado, abraçar sua esposa, ver a mãe.
  Enquanto dirigia, lembrou-se da frase escrita no pára-choque do seu próprio, cargueiro:

    Guiado por Deus e o Brilho da Lua.

  E se dependesse dele, esse Deus, em quem tanto acreditava, jamais teria motivo para permitir que um acidente como aquele acontecesse consigo. Orgulhava-se de ser bom motorista, responsável e de seguir as leis de trânsito. Não que fosse perfeito, claro que como todo ser humano, ele cometia falhas, mas, ainda assim, sabia que, se dependesse dele cometer uma imprudência como a que vira naquela noite, ele estaria livre. Amava a vida, a liberdade, a profissão que exercia.
  Enquanto dirigia em cismas, acompanhado pela lua que brilhava redonda no céu, pensando o quanto desejava chegar em casa e abraçar a mãe e a esposa, ele chegou a uma conclusão. Sabia ele que, não fosse a imprudência de um condutor, o fim daquela história, poderia certamente ser diferente.

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