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Crônica
 
Apague a Luz ao Sair
Por: Paulo Elias

O Sr.Yuri, naquela manhã de primavera, fez o que fazia ritualmente já à anos; caminhou com certa dificuldade, da cama até a varanda do quarto, respirou fundo a brisa que vinha do mar, e percorreu com os olhos a faixa de areia que delineava a praia por mais de dez quilômetros. Mais por hábito que por curiosidade, sabia que não teria nada pra se ver lá, nem quiosques, nem trailers, nem carros, nem pessoas... Era uma faixa de areia muito branca medindo uns dez metros, entre a agua do mar e a mata; parecia até haver um pacto silencioso entre selva e mar para não se tocarem, e a areia estava ali para lembrar a ambos.
A floresta expandiu muito nos últimos anos, o velho tentou em vão distinguir os enormes prédios da cidade cinzenta onde havia nascido, mas foi tudo engolido por gigantescas arvores, trepadeiras e cipós. Até mais ou menos uns trinta anos atrás, ele não se lembrava direito, o casal costumava explorar alguns prédios como teatro, mercado, cinema todos vazios e abandonados; os últimos amigos que tiveram antes do êxodo, disseram que iam morrer de solidão, mas Ester e Yuri conseguiam se completar, e a companhia um do outro já era suficiente para fazê-los tocarem seus dias. Não tinham filhos, porque quando se conheceram, a grande praga já havia se abatido sobre a humanidade.
Durante um ano aproximado, foram milhões e milhões de mulheres abortando a gravidez em todo o planeta, e a seguir foi a esterilização em massa atingindo tanto homens como mulheres, determinando o começo do fim da civilização humana. Os maiores médicos e cientistas do planeta, passaram anos a fio debruçados sobre mesas e computadores atrás de uma solução, mas nada foi descoberto. Era como se a natureza reclamasse o que era dela por direito: A Terra! Aí então houve a aceitação geral e vinte anos mais tarde já não havia uma única criança em todo o globo terrestre. Famílias tradicionais da sociedade, sucumbiam no ostracismo sem terem herdeiros a quem deixar seu legado, cidades se esvaziavam, governos eram dissolvidos e foi em meio a esse caos social que Yuri e Ester se conheceram, e ao invés de seguirem o fluxo natural das poucas pessoas restante, que fugiam em busca de lugares mais povoados, decidiram assistir ao fim da humanidade ali mesmo, da varanda de uma enorme propriedade abandonada de frente para o mar. O amor que sentiam um pelo outro serviu para amenizar o castigo que a natureza lhes impunha. Retirando sustento da terra, mar e selva, eles foram testemunhas solitárias do que acontecia com a cidade; Os sons mecânicos e artificiais, foram sendo substituídos pelo canto das gaivotas, pelas ondas na rebentação da praia; notava-se o ecossistema encontrando o equilíbrio novamente, depois de milênios sob jugo dos humanos.
O casal já não mais se importava com o tempo, e só o percebiam nas rugas do rosto e mãos, que se multiplicavam dia a dia, nos olhos tristes e desbotados que ainda teimavam em olhar para o horizonte, para a cidade perdida sob a selva, para o céu azul e sem poluição com muito mais estrelas a noite...E assim envelheceram; já fazia muitos anos que não viam mais ninguém , nenhum avião no céu, nenhum barco no horizonte; embora temessem serem os últimos humanos na Terra, estavam preparados para isso; um cuidava do outro de maneira carinhosa, e em todos os sentidos se completavam. Até aquela manhã de primavera!
Yuri voltou ao quarto e ali em pé ao lado da cama, contemplou o semblante da sua Ester, já sem vida, encolhida sob as cobertas com uma expressão de paz e tranquilidade no rosto enrugado! O velho quase se sentiu feliz por ter sido ela a primeira, pois sofria só de pensar em morrer e deixá-la sozinha para traz. Sabia que sem ela era uma questão de dias, talvez horas , para que sucumbisse também. Com quase cem anos, não tinha mais forças para sepultar sua amada, mas conseguiu depois de muito trabalho, leva-la ate a varanda do quarto, onde a acomodou com carinho na cadeira de balanço, e aconchegando-se ao lado dela preparou-se para o fim do dia. Naquela noite não haveria luz na casa; todas as velas e tochas que Ester costumava acender quando o sol se punha, permaneceriam apagadas. A ultima luz que Yuri gostaria de ver, era a do sol se deitando no horizonte! Seria como uma grande família partindo de férias, fechando portas e janelas e o ultimo a sair, apagando a luz!

Por Paulo Elias 2018


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