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Conto
 
MEU AMIGO ‘B’
Por: ROSANGELA MALUF

*Obs: nestes tempos não existiam muitos celulares nem facebook!



Fico daqui pensando porque você não me quer dar atenção!

Escrevo e-mails, envio mensagens idiotas, às vezes alguma coisa inteligente, mas você não liga, não dá a menor bola para o que mando ou deixo de mandar. Via Internet tento retomar o que nem bem começamos, um novo papo, novos escritos, perguntas tolas, como é que está o tempo aí, o que você tem feito de bom, tem ido ao cinema? Uma ligação, é isto! Uma telefonadinha! Só para saber, se você está ou não em casa numa hora dessas. Domingo, no horário do chato do Faustão. Ou não? Melhor não!


Ainda ontem o que se passava era exatamente o contrário: minha caixa repleta de e-mails seus, poesias, versos, textos lindos, artigos, dicas de compras, roteiros de viagens, e eu ali, lendo (e gostando). Respirava fundo, fechava os olhos, pensando em você, depois relia tudo, arquivava, lia de novo, mas nem sempre respondia. Às vezes me chegava uma foto. Eu olhava, admirava as mãos brancas, ficava imaginando mil coisas. Se aquelas mãos fumavam, contavam dinheiro, acariciavam ou agrediam, escreviam, tocariam algum instrumento, talvez pintassem telas cheias de sol e de flores...

Um sorriso, o que haveria por trás daquele sorriso tão monalisa? Na verdade nem era assim tão misterioso, mas me despertava muita curiosidade. O proibido, o oculto, o desconhecido talvez. Telefonar eu não telefonava, vozes trazem perigo, sempre! E se fosse a voz do Neil Diamond cantando no Jonathan Livingston Seagull? Aquela voz que me fez chorar quando fui ver o Fernão Capelo Gaivota. Ah, a voz do Neil Diamand. Glory, glory, day. Era um filme tão lindo que eu poderia contá-lo inteirinho para você, poderia até cantar alguns trechos. Escanear fotos de cenas do filme. Ai, que horror, cantar e contar um filme tão antigo. Aí é que você não apareceria mesmo, nunca mais!

Meu caro amigo B...Bernardo? Benito? Bruno? Bento ? Ah, Bento não...não gosto do nome, me faz pensar em professor de matemática, daqueles de pince-nez e olhar por cima das lentes. Da rua vem um Djavan berrando num carro com o som mais distorcido que já ouvi. Não combina mesmo! Djavan tem que ser ouvido baixinho, apreciado, saboreado. E eu aqui, verificando a minha caixa postal. Nenhuma resposta ao cartão bem humorado que lhe enviei.

Sabe de uma coisa? Em outra época já teria chutado você para escanteio, mas hoje, aos 40 anos de idade penso que não custa insistir um pouco mais, dar uma pequena chance à sorte. Quem sabe? Tudo é possível e eu não me esqueço, uma noite sequer, de rezar para São Judas Tadeu. E tem mais, acendo vela...vela e incenso "spiritual guide", para que os bons fluidos embalem meu sono.

Mas ando com insônia, sabe. A vida não anda fácil para ninguém. Minhas amigas dizem a mesma coisa. Daí, se arrumar um homem já está difícil o que dirá de se arrumar um daqueles de boa situação, sem filhos, se possível; ou viúvo (por medida de segurança) e disponível para uma solteirona como eu ? A idade do lobo. Nesta altura da vida todos só querem comer chapeuzinhos vermelhos. Sobra mesmo pouca chance para nós. Mas, sabe que olhando no espelho me dou uma idade bem menor? Uns dez anos menos. Talvez porque sou miúda, dizem que mulher grande envelhece mais. Muito osso, muita carne, faz muita vista. As menorzinhas, não, ficam ali, aquelas coisinhas, murchando aos poucos, sem assustar.

Será que você, meu amigo B, vai desaparecer como todos os outros? Será que conseguiu alguém que lhe dê mais receitas, lhe envie temperinhos, e aí não fala mais comigo, nem deixa recados. Estou pensando em desistir de você. Seriamente decidida. Nos falamos há algumas semanas, assuntos sem muita importância, mas eu sempre querendo mais de você.

Quando desligo o computador fico com a impressão de que poderia ser mais incisiva, mais assertiva, não divagar tanto. Você, por outro lado, também se mantém distante. Intencional ou não, o fato é que isso não nos aproxima. De você, sei menos do que gostaria. Olho por repetidas vezes a mesma foto antiga. Só de rosto, bem de pertinho, onde se vê claramente o verde escuro de uns olhos grandes, por detrás das lentes grossas. E monalisa ainda lá, naquele sorriso pouco revelador.

Já fomos mais frequentes em nosso falar. Tínhamos quase um compromisso vespertino de entrarmos no mesmo horário, na sala 19, aquela do bate papo do pessoal da culinária, lembra? Eu que nunca gostei de cozinhar, achava aquilo uma chatice, mas ia mesmo assim. Via vocês falarem dos peixes, das ostras, lulas e camarões e ficava mareada só de ler tudo que todos escreviam. Mas se houvesse um convite mais expressivo, um jantar, por exemplo, eu bem que aceitaria, mareada e tudo. Mas ...que jantar? Estou mesmo louca!

O telefone toca. Nunca atendo da primeira vez... Gosto de dar a impressão de que estou muito ocupada e só na quinta chamada é que digo :- Hello! Ninguém responde. Alô!! Alô. Desligo. Um frio na barriga. E se for ele? Ah, que pena, eu não tenho bina... E se tocar de novo, pergunto ? - É você, B., meu amigo? Mas não; o telefone não toca mais. Acho que fiquei irritada. E logo eu, que parei de fumar, acendo um lápis cigarro imaginário e faço rodinhas de fumaça no ar.

Em algum lugar da minha agenda do ano passado, tenho o seu telefone. É o cúmulo, vasculhar agenda para encontrar um telefone antigo. Que bobagem, se eu ligar o que de mais poderá acontecer? Você poderá dizer que nem me reconhece a voz. Peço desculpas, foi engano, desligo. Pode se mostrar indiferente, o que será ainda pior. Faço de conta que me sinto desinteressada também, me desculpo, mas desligo primeiro. Melhor não. Dona Cocó dizia lá na minha cidade do interior: mulher correndo atrás de homem é igual linguiça atrás de cachorro.

Eu ficava imaginando a cena. Dona Cocó me repreenderia e ajeitando seu chapéu imaginário e arrastando roupas de princesa pelas calçadas afora, diria: homens, eca! D. Cocó era louca, mas sábia. Sabia inventar histórias, relatava fatos estranhos, contava mentiras, relatava sonhos premonitórios e nem sei porque penso nela agora.

Quero voltar a pensar em B. Desejaria tanto ter continuidade com ele. Chega de bilhetinhos, conversinhas, e-mails pra lá e pra cá. Me falta coragem! Goiânia é tão longe de São Luiz e eu fico daqui, indo e voltando para a Secretaria de Saúde onde, por detrás da mesa, fico vendo a tarde passar com preguiça, lá fora. Nem mar eu vejo, nem palmeiras ao vento eu tenho.

Tenho sim, um computador só pra mim, uma sala grande com uma chefa mal humorada e mais dois funcionários, peixinhos do secretário, daqueles que nada fazem, sabe como é... No final do expediente, faço de conta que estou atrasada com o serviço e entro na sala 19, para falar de culinária e conversar no reservado com B. Meu coração dispara quando vamos para o reservado. Nada de mais se passa ali, mas fico imaginando que estamos a sós e isso sim, me esfria a barriga. Fico tímida, envergonhada, que boba eu sou.

B. nunca me disse seu verdadeiro nome e para ele, sou Linda Flor! Ele mais fala do que me escuta, talvez por ser muito inteligente, tem muita história para contar. Até conhece Minas Gerais! Mandei para ele umas receitas de comida mineira. Por que passei em concurso público e estou morando em São Luiz do Maranhão, mas sou mineira, do interior, do Vale penoso do Jequitinhonha e nem assim gosto de cozinhar não!

Fico pensando nas minhas prosas com B. Penso que tudo pode ser mentira, mas que também pode ser verdade. E se ele viesse ao Maranhão, eu pensei: posso convidá-lo, seria tão bom conhecê-lo de verdade, ver ao vivo o sorriso monalisa, constataria a brancura de suas mãos, poderia mostrar a cidade, levar a restaurantes, arroz de cuxá. Visitar os Lençóis. Lençóis? Será? Outros lençóis estariam nos planos de B?

Djavan já não berra mais, o vizinho aqui do lado resolveu desligar o som. A tarde já se vai, sopra um ventinho bom e daqui a pouco volto para casa. Antes preciso digitar umas coisas e esperar que B. dê sinal de vida na telinha do meu computador. Enquanto isso todos os outros se preparam para sair. Você não vem, B? Logo hoje, 6ª. feira queria tanto falar com você. Fico esperando, esperando, esperando.

Nada...todos chegam e nada de B. Não tenho o que fazer em casa mas essa espera me deixa ansiosa. Eu que não fumo mais, porém mastigo a ponta da minha bic preta e coloco, de uma só vez, três caixinhas de chicletes, na boca. B não vem mais. Amanhã tento de novo, se bem que aos sábados o pessoal da culinária não aparece na sala 19. Já aconteceu de B aparecer por lá, mas é sempre muito rápido. Desligo o computador, ajeito minha mesa, enfio o que posso nas gavetas, pego minha bolsa e saio.

No elevador encontro Bené, um colega que trabalha aqui, numa sala bem ao lado da minha. Fico olhando para ele. Aquelas mãos brancas. O sorriso de monalisa. Animado, alegre, leve, suave, de bom humor. Penso que sua companhia me poderá fazer bem...


Aceito seu convite para um chopinho, afinal hoje é sexta feira!

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