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THEODORE ESTÁ ME TRAINDO
Por: ROSANGELA MALUF



Só de pensar, na possibilidade de algo concreto, sinto mal estar físico. Meu coração dispara, vem à boca. Antes mesmo de qualquer certeza meu pensamento voa. Já penso lá na frente. Já nos vejo no tribunal. Divisão dos bens. A dor, o sofrimento, a surpresa dos parentes e amigos. Calma, preciso de calma. Não enxergo nem mesmo o painel do carro à minha frente, as lágrimas inundam meus olhos e preciso respirar fundo para tentar raciocinar um pouco. Faço algumas asanas na esperança de me sentir melhor.

Abro as janelas do carro. O vento frio me reanima. Volto a fechar as janelas e olho para a prova do crime: do lado direito, na parte interna do parabrisa, dezenas de marquinhas de dedos. Com se fossem pequenos carimbos, estampados no vidro, mas concentrados, exatamente, na direção de quem se encontrava ao lado do motorista. Olho para as marquinhas e me convenço de que a autora (!) das mesmas deveria estar bastante ansiosa para repetir por tantas vezes o gesto de colocar o dedo no vidro.

Imaginei que "ela", (porque a essa altura, ela já tinha uma imagem definida em minha mente), estaria nervosa, talvez cobrando alguma atitude "dele". Será possível, meudeus? Acredito e não acredito! Ouço no rádio, são nove e meia. Falta uma hora para a minha aula de yoga. Não posso permitir o caos que insiste em se instalar em meu sistema energético. No sinal fechado ensaio um mudra, gesto de mãos que melhora nosso fluxo de energia. Meu coração ainda bate descompassado, mas me sinto um pouco melhor.

O trânsito flui lentamente pela Columbus Avenue. Estou próxima ao Central Park, na altura da 86 Street. Com um pouco de sorte posso chegar sem atraso ao Divine Mother. Inspiro e expiro, inspiro e expiro; quem será ela? Eu a conheço? Será uma cliente, uma arquiteta, colega de faculdade, uma funcionária do escritório, alguém encontrado por–puro-acaso dentro do metrô? Nada sei.

Um calor me consome, tiro o casaco, desligo o aquecedor do carro e enquanto espero o sinal coloco um cd com mantras tibetanos. Ao invés de me acalmar, fico ainda mais nervosa com aquela repetição sem fim. Volto para o rádio, o homem do tempo informa que vem mais frio por aí. O sinal fica verde, eu vou, eu voo. Mas para onde? O que será de mim depois da aula de yoga? Depois de todas as posições invertidas, respirações e relaxamentos voltarei para o meu inferno particular e daí?

Tenho sede e nem uma garrafinha de seltzerwather no carro. À minha direita o Madison Square Garden, fervilhando de gente nessa manhã de quarta-feira. Não falta muito para chegar ao Greenwich Village. A academia fica na Christopher Street e não vou me atrasar. Respiro longa e profundamente. Vai me fazer bem essa aula de hoje, só espero poder falar com Mrs. Narayana no intervalo. Ela sabe ouvir e terá, muito o que escutar de mim.

"...existe uma conexão fundamental entre a respiração e os estados físicos, mentais e emocionais. A energia vital, a respiração por detrás da respiração, entra no corpo pelas vias nasais". Sim, claro. Inspirar em oito tempos, expirar em oito tempos. Esvaziar o pensamento, deixar o corpo flutuar.

Como não pensei antes na possibilidade de Theodore ter outra pessoa. Infidelidade era algo tão distante do nosso dia-a-dia! Ou será que distante apenas do meu dia-a-dia? Trair, enganar, mentir, omitir, aventurar, por mais que eu me considerasse moderna nunca pude conviver com essas ideias.

Eu tinha amigas que achavam tudo muito natural. Mary Jo, minha colega de yoga, leva a vida numa boa, sem se importar onde o marido se mete nas muitas vezes em que liga para sua loja em Chinatown e os funcionários nunca sabem dizer onde ele se encontra. Ah, aquele meu chinês, ela diz! Mas lá no fundo ela não quer mesmo nem saber. Muito mais cômodo assim.

Mary Jo acha que a felicidade se resume em carro com motorista, joias, viagens, roupas, jantares no The Lion e todos os eletroeletrônicos capazes de fazer a sua vida melhor a um simples toque no remote control. E cachorrinhos! Ah, claro, porque filhos, nem pensar. O chinês não quer, a mãe do chinês abomina a ideia de ganhar um neto criolo, um escurinho de olhos amendoados, pois Mary Jo, na verdade, nasceu Aleyda, negra cubana que hoje se delicia em New York com as maravilhas do mundo capitalista.

"... a tensão física nos músculos respiratórios, localizados entre as costelas, pode causar rigidez no peito e até dor. Técnicas de respiração descontraída irão liberar a tensão em todo o seu corpo".

Theodore! Como pude ser tão ingênua ao ponto de acreditar em seus muitos novos clientes, no escritório caótico, nos projetos se acumulando sobre sua mesa, nas horas extras, trabalho e mais trabalho. Ainda que tudo fosse verdadeiro não seria necessário tanto tempo extra a cada dia, todos os dias da semana, inclusive aos sábados!

Fico me perguntando, quando foi mesmo que Theodore começou a mudar. Não me recordo, esforço-me, mas não me lembro. E ele mudou sim. Até reclamei do quanto ele vinha fumando, sempre de cigarro na mão, aquele hálito que não me agradava nem um pouco, um cheiro horrível em suas camisas brancas, no travesseiro, tudo impregnado com o mesmo e terrível cheiro-de-cigarro.

Ele vinha também bebendo mais do que o normal. Já não mais socialmente, mas frequentemente. Andava meio calado mas como nunca fora de falar muito, eu pensava que tudo andava bem.

Algumas vezes me lembro de ter acordado à noite e encontrá-lo no sofá, deitado, fumando e ouvindo seus discos de jazz. Insone, dizia ele, não consigo me desligar do trabalho, você sabe como é. É, eu sabia!

"...além de incentivar a respiração através do nariz, num padrão suave, a yoga estimula o uso do diafragma e a coordenação entre movimento e respiração".

Depois da aula vejo que Mrs. Narayana não falará comigo. Tem um swami esperando por ela. Mary Jo me pede uma carona. Digo que tudo bem. Espero por ela no estacionamento.

Coloco um casaco por cima da malha e desço de uniforme mesmo. Entramos no carro. Ela fala sem parar, nem percebe minha angústia. Temos alguns minutos até a Penn Station, ali na 34 street. Falamos de coisas banais, o frio, a manhã, o final de semana. Convida para uma ida até Atlantic City. Mary Jo adora um cassino, enlouquece diante de uma roleta. Enquanto fala coloca os dedos finos sobre as marquinhas no vidro do carro. Sinto uma estranha sensação, muito estranha...

Theodore já terá ligado pelo menos uma vez antes do almoço?

Hoje, consultório só depois do meio dia. Posso passar em casa, sem pressa, mexer em alguns bolsos, xeretar suas gavetas, alguma outra pista deve existir. Mas que tipo de mulher sou eu? Estou ou não triste com a descoberta? Tenho certeza ou não do fato consumado? Quero bancar a detetive ridícula ou não? Não sei se quero ligar para minha amiga Jennifer. Tenho vergonha de mostrar minha dor; e se nada disso for verdade? Eu preciso saber, mas como? Vou telefonar... Para quem? Vou dizer o quê? Quero minha mãe, preciso de colo, mas acho melhor, não. Todos saberão que fui passada para trás. Não me agrada essa ideia. Fico olhando as pessoas correndo lá fora. Fico imaginando coisas, muitas coisas.

Preciso saber se o meu carro ficou pronto. Não vejo a hora de entregar, para o Theo, o carro dele, com as marquinhas dele. Não toquei em nada, mas quero saber das marquinhas. Chego em casa, tomo um banho e enquanto preparo uma salada ligo para o escritório. Ele conversa normalmente como se nada houvesse de diferente (e talvez para ele não haja mesmo). Pode pegar o meu carro no final da tarde? Sim, na Lexington, quase esquina da 68, perto do Hunter College. Você sabe onde é, né? Ok.Bye!

Já estou me refazendo; programação neurolinguística é coisa séria, adianta mesmo. Venho me exercitando desde a hora do banho e já começo a me sentir diferente. Entre um suspiro e outro vou exercitando minha respiração bástrica.

Acendi uns sticks de sândalo e uma vela amarela que coloco frente à uma foto nossa, felizes e sorridentes nas últimas férias de inverno. Peço proteção a Deus, à Krishna, aos monges do Tibet, invoco Buda, quem puder me ajudar, que venham todos em meu socorro. Help!

Passo a tarde atendendo no consultório. Nenhuma novidade, a mesma rotina de sempre. Um dente que incomoda, uma obturação que soltou, um siso que insiste em despontar. Olho incontáveis vezes para o relógio. Quero ir para casa, mas não quero ir para casa. Quero olhar Theo nos olhos e perguntar o que quero saber. Mas eu não quero saber. Quero enfrentar a realidade, encarar os fatos. Mas a realidade é tão dura e os fatos tão convincentes.

Encarar os problemas, por piores que eles sejam, é sinal de força. Mas eu não sou uma mulher forte, não sou corajosa. Me pego numa fragilidade sem fim, uma trapezista sem rede. Quero que tudo se resolva rapidamente, mas não quero que doa, não quero sentir pena de mim. Tudo, menos autocompaixão!

São duas horas da manhã e Theo ainda não chegou.
Jantei sozinha, assisti o jornal na tv, li rapidamente as notícias na Internet, joguei paciência, mas impaciente, fui arrumar gavetas. Organizei os casacos, todos com o cabide virado para o mesmo lado; dobrei blusas, dependurei camisas, organizei sapatos em caixas; refiz a pilha de malhas, juntei pés de meias, tirei do dedo a aliança. Só então começo a chorar. Choro de verdade, lágrimas quentes em cascatas.

Choro por mim, pela minha dor, pela decepção, pelo inesperado da situação, pela incerteza, pelo luto em meu coração. Choro pelos planos que fizemos juntos, pelas viagens programadas, pela casa vazia e triste sem seus livros e discos antigos de jazz. Choro por Theo, por sua deslealdade comigo, reconheço sua infelicidade, me arrependo de tudo quanto não fizéramos por nós.

Lamento pelos filhos que tanto planejamos, pela casa de campo nunca construída, pelas noites em que dormimos sem nos perdoar, das bobagens que nos dissemos, das mágoas que nos causamos, todas desnecessárias. Agora deve ser tarde. Revejo nossa vida, juntos e acredito que nós dois, ele e eu, permitimos muito, fizemos concessões demais, cuidamos pouco do nosso afeto, fomos deixando que o dia-a-dia nos consumisse e agora, olha só no que deu. Separados; assim seremos daqui pra frente. Será mesmo? Oh, my God, oh meu Deus !
Perdi a conta de quantas xícaras de chá foram consumidas até que a porta se abrisse e Theo aparecesse.


Hoje é quinta-feira, meu day-off.
Não tenho vontade de sair da cama.
Faz muito frio, o dia está cinzento e o sol não vai aparecer. Acabou-se, tudo resolvido. Abraçada ao travesseiro dele, decido naquele instante que chorarei cada vez menos. A dor no peito não pode ficar para sempre. Não sou a única. Vai passar. Lentamente, mas vai passar. Não morrerei. Não matarei ninguém. Somos práticos e tudo será resolvido civilizadamente. Preciso de tempo, de muito tempo.

Preciso reorganizar minhas ideias, preciso de aspirina para minha dor de cabeça, de prozac para melhorar o meu dia, de coragem para sair à rua, de colo, de falar com alguém, de lexotan para poder dormir. Preciso de tanto!

No vazio do meu coração, da minha alma, da minha mente ecoa uma frase única:


- Sim, o nome dela é Sarah.

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