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José-Augusto de Carvalho
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Crônica
 
NA PALAVRA É QUE VOU... * A pressa
Por: José-Augusto de Carvalho



O Flávio passou agora mesmo por mim. Iluminou a face com um sorriso e lá foi pedalando. Já nem se apercebeu do meu aceno que era um cumprimento e um adeus. Esta gente anda sempre com pressa. Não sei se é a Vida que apressa esta gente, se é esta gente que apressa a Vida. Num contraponto indiferente, o dia continua a ter 24 horas. E tanto quanto posso observar, a natureza mantém o mesmo ritmo. A natureza onde os manobrismos humanos (ainda?) não interferem para acelerar, retardar, alterar, modificar o seu ancestral modo de ser e estar.

Lá mais à frente, a estrada se cruza com um ribeiro. O Flávio já deve ter passado a ponte. E quero crer que, com a pressa, nem olhou o leito deste pequeno curso de água.

É, com certeza, um ribeiro igual a tantos outros que serpenteiam a planura. Eu gosto muito de arroios, de ribeiros e ribeiras, de rios e de mar. É o fascínio da água. Este meu fascínio me leva a ficar horas e horas olhando este ou aquele curso de água, a tentar imaginar percursos evadidos, a criar exaltadas ousadias, a recusar destinos parados de prostração e renúncias. Ora foi num dia que nem sei precisar que vi estupefacto, neste mesmo ribeiro, uma represa canhestramente erguida. Estupefacto porque a represa não tinha a finalidade transitória de aproveitar água para rega. Olhando mais atentamente, percebi: o ribeiro, naquela área, atravessa uma propriedade rústica e a represa nada mais é do que um passadiço para um tractor agrícola. Com certeza, na estrutura do passadiço poderiam ter sido usadas manilhas para deixar a água livremente correr. Mas o autor do passadiço não pensou nisso ou não quis pensar. E em nome do utilitarismo estreito e de um inaplicável direito de propriedade, cortou uma linha de água que é um bem público.

E estas coisas e tantas outras existem e persistem anónimas por vontade de quem não vê, de quem não quer ver…

Eu sei, é a pressa… Mas serão seguramente os apressados da Vida, serão os distraídos da Vida, serão os indiferentes da Vida os primeiros a apontar o indicador acusador aos outros, aos tais outros que tinham o dever de ter visto e não viram; que tinham o dever de ter previsto e não previram; que tinham o dever de ter agido e não agiram…

O Flávio passará por aqui, no regresso, pela tardinha. Hoje já não o verei, está arrefecendo e eu tenho de resguardar a minha anciania.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Janeiro de 2018.

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