Seleção de Livros! Clique e confira.

A casa dos grandes pensadores

Bem-vindo ao site dos pensadores!!!

| Principal |  Autores | Construtor |Textos | Fale conosco CadastroBusca no site |Termos de uso | Ajuda |
 
 
 
Crônica
 
A GRAVIDADE SEMPRE VENCE
Por: Valdir Sodré

Dedicada ao amigo Thomaz de Aquino Falcão,
que faleceu precocemente e deixou muita saudade,
proporcionando-me uma amizade eterna.

Como não relembrar da belíssima e inesquecível campanha de conscientização televisiva sobre a Síndrome de Down, em 1998, na qual apresentava duas personagens centrais: Carlinhos e seu amigo?

São inúmeros detalhes que compõem a riqueza primorosa da campanha, que celebrava o Dia Internacional da Síndrome de Down (21 de março). Ao som da música Fake Plastic Trees (Falsas árvores de plástico), da banda Radiohead, o vídeo exibe os dois garotos brincando num carrossel, enquanto algumas mensagens sobre a rotina de Carlinhos são exibidas na tela, tais como: Carlinhos vai à escola todos os dias. Seu amigo, não; Carlinhos faz natação todos os dias. Seu amigo, não; Carlinhos faz aulas de piano. Seu amigo, não; Carlinhos é portador da síndrome de down. Seu amigo é um menino de rua; Down: a pior síndrome é a do preconceito.

Delicadamente ao ler a letra da música, um dos versos se destaca: but gravity always wins (mas a gravidade sempre vence). Sob a lincença poética, de fato, a única certeza que temos quando nascemos, mesmo que inconscientemente, é que um dia morreremos. Mesmo considerando o aumento gradual da expectativa de vida não há como negar que a gravidade sempre vence. É ela que nos empurra para o centro da Terra, fazendo nos curvar, a cair os belos e fartos seios da juventude, a aumentar o tamanho das orelhas com o tempo, a enrugar a pele drasticamente, enfim a determinar o caminho de todos nós: o fundo da superfície da Terra. Podemos assim, então, dizer que a gravidade possa ser a nossa maior inimiga na vida.

Mas o que falar sobre todas aquelas pessoas que partiram dessa vida terrena precocemente sem se submeter até quando fosse possível à força estranha e enorme da gravidade? Como entender as inúmeras patologias que acometem a humanidade, provocando em certa parte o prenúncio de uma morte precoce? Talvez essas pessoas sejam cúmplices, em outra dimensão, do mistério do que representa a morte em nossas vidas. Elas foram capazes de negar a premissa de que a gravidade sempre vence, transformando essa afirmação numa outra perspectiva, ao permitir-nos entender que nosso lugar é o céu, sem a presença dessa força poderosa. Aos que nos deixam precocemente é atribuído o desafio de que possam se transformar em anjos, cuidando especialmente daqueles que ainda permanecem vivos sob a pressão vertiginosa da gravidade. Vale ressaltar que anjo é a única entidade aceita por todas as religiões. Aos que nos deixam precocemente vibram os recados de que uns dos caminhos da humanidade são o ecumenismo e o multiculturalismo.

Assim sendo, a gravidade não é a nossa única inimiga, mas é ela que determina o fim àqueles que conseguiram viver sem as ameaças prováveis de doenças crônicas ou de acidentes possíveis nas nossas vivências sob a evidência de corpos vulneráveis.

Porém esse destino cruel que aflige toda humanidade não é o fator primordial para determinar as regras de tratamento dos últimos anos de vida de todos nós, incluindo nesse espectro as pensões de aposentadoria depois de décadas de trabalho durante a vida adulta produtiva.

A lógica do mundo neoliberal de repensar os ditames de como e quando as pessoas devem se aposentar considera em demasia a força da gravidade como aliada às regras tecnocráticas do financiamento global para a previdência social. E o Brasil não fica fora dessa lógica mundial.

Há de se acreditar na tese de que o rombo da previdência social brasileira é um déficit fabricado. A previdência social é a maior conquista do povo brasileiro, expressa no artigo 195 da Constituição Brasileira. Existem fontes variadas para o financiamento desse fundo, tais como: a contribuição de trabalhadores e empregadores através do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS); a contribuição que incide sobre o consumo (COFINS); o Programa de Integração Social (PIS) e do Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (PASEP), que são contribuições sociais, devida pelas empresas; a arrecadação sobre a venda de produtos rurais; a arrecadação sobre todas as importações; a contribuição que incide sobre todas as loterias; dentre outras.

O Governo Brasileiro ao compor os cálculos previdenciários só considera a contribuição do INSS para comparar o que se arrecada com todo o gasto global necessário. Na verdade, há uma sobra de dezenas de bilhões de reais nos cofres da previdência social brasileira.

Em paralelo à essa lógica em tese, certamente Carlinhos consome produtos e serviços, que geram impostos que incidem no bojo previdenciário. Provavelmente Carlinhos consome produtos importados, vista sua qualidade de vida estável, gerando novas cifras monetárias. Certamente Carlinhos tem pais que trabalham e contribuem mensalmente para o INSS nas suas folhas de pagamento, gerando novos números monetários.

O que a globalização mundial se esqueceu foi integrar as misérias do mundo. E certamente o amigo do Carlinhos vagueia pelas ruas sem compreender nada sobre essa lógica capitalista, permanecendo vítima de um jogo que não o salva das injustiças sociais prementes.

Para aliviar nossa consciência coletiva, podemos nos remeter a outro verso da canção do Radiohead: If I could be who you wanted (se eu pudesse ser quem você procura). Se o amigo do Carlinhos sobreviver até que a gravidade o vença e pudesse ser quem se procura, certamente não terá mais tempo para apagar todas as crueldades e mazelas que o tentaram transformar num homem falso de plástico. A gravidade sempre vence, mas viver ainda é o maior tesouro que temos e valorizar cada instante da vida como se fosse o último é uma forma inteligível e salutar de nos reconhecermos como sujeitos transformadores e que são transformados pela força incomensurável da plenitude de ser e viver. Somos o que podemos ser. E só mesmo o tempo pode ser o motor determinante de nossa caminhada. O tempo é relativo, sabendo que o Sol está no passado, uma vez que seus raios só chegam a Terra 8 minutos depois. Ademais, o tempo de Deus não é o mesmo que o nosso. Não somos capazes de compreender os mistérios e os desígnios de Deus em nossas vidas. Afinal, o tempo é o senhor da gravidade...

 Comente este texto

 

Comentário (0)

Deixe um comentário

Seu nome (obrigatório) (mínimo 3, máximo 255 caracteres) (checked.gif Lembrar)
Seu email (obrigatório) ( não será publicado)
Seu comentário (obrigatório) (mínimo 3, máximo 5000 caracteres)
 
Insira abaixo as letras que aparecem ao lado: KcUK (obrigatório e sensível. Utilize letras maiúsculas e minúsculas;)
 
Não envie mensagem ofensiva e procure manter um intercâmbio saudável com o seu correspondente, que com certeza busca dar o melhor de si naquilo que faz.
Seu IP será enviado junto com a mensagem.