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Ensaio
 
Paz para uma deusa!
Por: Marlene A. Torrigo

Como o celular é irritante! Mais enervante é a necessidade de usá-lo. Em todo lugar que ando, pra todo lugar que me vire, tem gente manuseando esse astro da humanidade. No meu trabalho, quando eu entro na sala de convivência da enfermagem, amiúde encontro duas, três colegas manuseando seus celulares, sem ao menos se olharem. Não aguento a cena e disparo dali.
Eu uso celular há muitos anos, mas sempre esqueço que possuo um pelo qual paguei caríssimo. Passo semanas sem carregá-lo comigo, pra felicidade da família que gasta todos os meus créditos. E a turma em casa reclama: “Acontece alguma coisa e a gente não tem como te encontrar. Celular é pra usar. Pra colar na mão.” E eu consigo?
Ultimamente, por estar apresentando piripaques cardíacos, a família quer porque quer que eu carregue o celular. Para evitar amolação digo a todos que tudo bem. Estou sim carregando esse aparelhinho irritante na minha bolsa. Comprei uma bolsinha tiracolo, do tipo porta-celular e desfilo por aí com ele a tiracolo, toda me achando – só não sei o quê.
Antes disso exonerei todos os aplicativos desnecessários do celular. Jogos viciantes? Tô fora! Vídeos imbecis? Tô fora? Whatsapp besta? Tô fora! Mensagens chatas? Só mesmo pra família, uma por mês, e olha lá!
Por esses dias, manuseando o celular, de brincadeira comecei a gravar a minha própria voz e ouvi-la. Como meu cérebro amiúde dispara frases inéditas para todos os lados, muitas das quais acabo esquecendo, foi assim que tive a brilhante ideia de gravar tudo o que eu penso para depois digitar no computador. Como experiência então, gravei todo um texto por etapas. Por etapas, porque a turma em casa está sempre interrompendo a escritora aqui.
Nas gravações ouço as vozes de todos de casa, ouço os latidos nervosos do Ted, meu vira-latas, pedindo ração, ouço os barulhos secundários da televisão, ouço meu filho especial cantando, ouço o barulho de louças, ouço os barulhos da rua e, trágico!, ouço o ensurdecedor barulho de aviões passando a cada dois minutos. Pois é... Encima da minha casa é avenida aérea. Embora eu não more muito próximo do aeroporto, os aviões rasgam o ar, quase levando a minha cabeça. Em certas partes das gravações eu não consigo decifrar o que eu digo quando os aviões passam.
Mas eu me vingo! Sabe o meu caríssimo leitor o que Marlene decidiu fazer? Ela decidiu alugar uma casinha aconchegante em alguma cidadezinha do interior. Diz que irá decorá-la com poucos móveis e objetos em estilo indianês. Irá ela percorrer lojas de tralhas e quinquilharias, reformar, reciclar. Tudo muito simples, mas muito excêntrico, energizante. Muitas cores, incensos de citronela para afastar pernilongos, rede, frutos e flores, plantas, revistas, livros, muita música, filmes, ah, sim, o celular e, paz para uma deusa! Tudo por enquanto é sonho, mas não tarda veremos Marlene vivendo no paraíso. Sozinha!
Sim, esse é o meu sonho mais singelo no momento. A cidadezinha já estou procurando. Tem que ser uma cidadezinha rodeada de verdes vales. E como trabalho e moro na cidade, em todos os fins de semanas, feriados prolongados, férias, ah!... Eu vou, eu vou, pra roça agora eu vou!...
Uma vez no meu paraíso particular, felicíssima da vida, não estarei pra ninguém. Nem mesmo pro Roberto Carlos. Quero estar, não solitária, não curtindo solidão, mas, isto sim, curtindo-me comigo, porque eu comigo nos completamos, somos almas gêmeas, unha e carne desde águas amnióticas.
Deixo claro que não quero gente chata perto de mim (que de chata já me basto), nem quero gente redonda, quadrada, retangular, diagonal, gente de traçado nenhum. Não quero ninguém interrompendo a minha harmonia, a minha leveza esotérica. E isso serve pra você também. Não adianta ficar alegrinho. Nem sonha! Pode esquecer. Eu disse que quero ficar a sós comigo! Entendeu? Ou quer que eu desenhe? Como sabes, além de escritora eu sou pintora, e sei desenhar muito bem (Mas, bem que se você aparecer... Se você bater na minha porta...).

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