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Sátira
 
O teu ego sobrepujava o sol
Por: Marlene A. Torrigo

A vida é um sonho. Um sonho que se transforma em pesadelo, muitas vezes. E o pesadelo derradeiro é a morte. Parece que nada sabias a esse respeito, não é mesmo, senhor Rildo? Interessa-te tão somente a tua ilusória vida nababesca. Não, não posso falar mal de ti porque estás morto. Contou-me tal sinistro uma das tuas irmãs, Zuleima. Ela fora realizar uma ultrassonografia na instituição de Saúde aonde eu trabalho e contou que morreste há três anos. Pasmei-me! Mas não deixei que ela percebesse meu espanto. E não falarei mal de ti, porque dos mortos só se deve falar bem, mesmo que um morto tenha sido um canalha. Não, não eras um canalha, mas eras infernalmente arrogante. God mio, querido amor da minha adolescência, teu ego sobrepujava o sol! Como raios e trovões morreste com sessenta e quatro anos? Não era para você morrer ainda jovem, não era! Desejei-te vida longeva, matusalenidade! Desejei que assistisse tuas carnes apodrecendo sobre ossos decrépitos, lúcido como um deus profano, para que afinal entendesses o que é a vida e aonde tua arrogância te levaria; a nada, a absolutamente nada! Curioso, perguntei como se dera o sinistro, porém Zuleima enrolou, enrolou, enrolou e não concluiu como se deu a tua causa-mortis. Será de alguma morte vergonhosa? Tudo bem, um dia uma boa alma há de vir contar-me, se há! Eu agora caminho pelos mesmos caminhos que caminhavas, sabendo-te absolutamente morto. Passavas com as mãos enterradas nos bolsos, endeusado e soberbo. Então eu recordava a adolescente que te amava, que não tinha pai, uma reles pobretona, filha de uma mãe portadora de severos problemas psíquicos, mas que você muito humilhava, ajudado por suas duas irmãs, Zuleima e Ednara. Sendo todos da sua família da mesma cor que a minha, parda-preta, preconceituosas e racistas elas diziam que casarias com uma moça loira de olhos verdes. Assim se deu. E eis que assim também se deu a desgraça da tua vida. Senhor Rildo, pelo Senhor dos Exércitos Derrotados, a tua mulher te traiu com o noivo da filha de vocês? Que fatalidade! Que fatalidade! – para a tua cabeça principesca, claro. Horrível! Horrível! Destarte, os anos passaram, o mundo girou. Tragédias aconteceram na minha vida, na tua, mas não perdeste a pose arrogante. E Zuleima, que me trouxe a más novas, não poupou elogios e histórias do irmão endinheirado que viajou por lugares fantásticos, que curtiu a vida alucinado - sem jamais partilhar um pão amanhecido com meia alma que fosse. Tudo contava com grande entonação de voz. A arrogância genética fluindo, persistindo. Só que agora morreste, não é mesmo? E nada mais curtes. Pensantes o quê, nutrindo tanto o teu ego? Quando menino já eras infernalmente presunçoso. De origem humilde, nascido no sertão de Pernambuco, herdaste a mesma arrogância do teu pai, que por sua vez não passava de um pobretão, sonhando-se rei. Lembro-me de todos vocês. Quando a menina bobona passava frente a sua casa, todos riam. Divertiam-se. A única pessoa que me tratava bem era a senhora sua mãe. Até hoje sinto imenso carinho por aquela Amélia sofrida, esposa de um homem mulherengo e cruel. Contou-me Zuleima, que de sua irmã mais velha, Ednara, morreu-se-lhe, pouco antes de ti, o filho único, de quarenta anos. A morte deste teu sobrinho estilhaçou Ednara. Será que Ednara ainda se lembra do quanto fazia questão de me humilhar? Será que se nos encontrarmos casualmente, ela ainda terá ímpeto de fazê-lo? Moramos tão próximas. Será que ainda verei aquele seu olhar de deboche? Sabe, levei anos para curar-me do complexo de inferioridade que vocês mo incutiram, mas... Retornemos a você, meu pobre morto. Rildo morto, morto Rildo. Imaginar-te morto... Que pena! Que pena que perdeste o melhor do show da vida; a crueza do tempo matando as células, destruindo um homem arrogante, ensurdecendo-o, cegando-o, aleijando-o, curvando-o perante a vida, devagar, bem devagar, divertindo-se com a decomposição do teu corpo, ensinando-te a verdade verdadeira da vida. Ah, mas o destino foi muito generoso contigo! Morrer ainda jovem e quase sem sofrimento. Foi pá, pum! E Rildo morto, absolutamente morto, apodrecendo sob a terra. Bem, morto estás e não há o que fazer. Espero que trombetas tenham tocado à tua chegada ao além, que belos querubins e lindas anjas loiras de olhos verdes o tenham recepcionado com toda pompa celestial, como é devido a um grande imperador. Caríssimo, desejo que vivas uma boa morte onde ora te divertes esplendorosamente. Boa morte mesmo! Assim... Como tiveste uma boa vida.

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