A casa dos grandes pensadores
 
 
 

OSWALDO ANTUNES (Jornalista)

 

Exportamos técnicos e importamos tecnologia

Está nos jornais: apesar de reconhecida potencialidade tecnológica no país, Minas está tentando um “arranjo” para aproveitar o soro da produção de laticínios. É inaceitável importarmos, por mês, 3.442 toneladas  de soro em pó, enquanto o soro da industria de queijos vai poluir os rios. Outra: no nordeste, uma fabrica de sucos fechou por não saber controlar a putrefação do bagaço de laranjas; vendida para estrangeiros, as frutas foram raladas antes do esmagamento, destinou-se o sumo verde à fabricação de cosméticos, e o resíduo branco para ração. O que poluía tornou-se fonte de renda.

Vê-se que o país não apenas deixa de ganhar: paga caro por não investir em tecnologia. As importações tecnológicas sinalizam modernização mas prejudicam o desenvolvimento por menosprezar pesquisas e deixar a inteligência inventiva sem trabalho.  Costuma-se citar como um dos exemplos dessa falha a exportação da inteligência do físico Marcelo Damy de Sousa Santos. Foi para a Inglaterra ajudar no desenvolvimento do sonar, aparelho detector de submarinos. O Ministro Oswaldo Aranha soube: - Se esse sujeito serve para a Inglaterra, vai ser mais útil no Brasil. Aqui, usando oficina rudimentar, depois de equipar nossa frota mercante, afirmou que o governo brasileiro “paga para destruir a criatividade e o desenvolvimento científico do país”.  

Seria útil descobrir que para acelerar o crescimento não bastam a caipirinha e o samba.  E ter como modelo não o produtor de cachaça, mas os exemplos cívicos de Santos Dumont com seu pequeno avião de pano, a inventividade de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão com o primeiro dirigível semi-rígido, o interesse cientifico de Manoel Dias de Abreu com as pequenas radiografias dos pulmões (abreugrafia) para diagnóstico da tuberculose. E ver a  tecnologia exclusivamente nossa, que se perde à procura mercado, desde os tempos do voador Bartolomeu Gusmão até a prática dona de casa Therezinha Beatriz, que inventou pequena bacia conjugada com peneira, o escorredor de arroz que conquistou mercado até na China, sem esquecer o Abre Fácil, que a Nestlé levou daqui para os EUA com o nome de Dop Top. Verificar ainda que as universidades são alheias ao desenvolvimento tecnológico: vieram a conhecer César Lattes quando descobriu nos EUA a partícula méson pi e  melhorou o aproveitamento da energia atômica. Veio e sua atuação foi decisiva na criação do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas e do CNPq.

O PAC podia ter tentado corrigir esse descaso. Ao invés disso, vê-se uma pequena e deprimente noticia oficial de “demonstração do grande interesse do governo em atender as antigas e justas aspirações da comunidade científica e tecnológica”: dos mais de 15 bilhões do PAC para este ano, o Ministério da Fazenda  fixou em US$ 300 milhões o limite para importação de bens para pesquisa científica e tecnológica. E assim, sem verbas, a  inteligência brasileira vai produzir fora a tecnologia que importamos.

 Oswaldo Antunes

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br  - 01/07/2008