HISTÓRIA DE NÓS DOIS - O COMEÇO
Eles se conheceram na época das grandes greves, fins de 79
começo dos anos 80. Ele vinha de militância católica, ela na
militância sindical. Nada tinham em comum. Ele de classe
média, filho de professor universitário; ela de família
operária, sendo ela mesma uma trabalhadora e sindicalista. Ele
tinha 19 anos e ela 28.
Na primeira vez em que se encontraram ela se apaixonou. No
esplendor de sua juventude e beleza ele lhe parecia um deus
nórdico, de grandes olhos verdes e flamejante cabeleira
louro-dourada. Tinha nas maçãs do rosto deliciosas manchas de
sardas que se sobressaiam nos seus momentos de timidez ou
raiva. A boca era cheia, encimada por um bigode que se reunia
mais abaixo em uma barba ruiva e cerrada que lhe dava o ar de
um viking. E ela o chamava de "viking".
Teceu em torno dele uma gaze de amor apaixonado, feita de
ironias, risinhos, histórias e o fascínio de sua mente ágil e
inquieta. Ela já tinha um passado, tinha um filho, um
casamento desmanchado e alguns amantes deixados para trás. Ele
recém cruzara a linha de sombra que dividia o mundo dos
adultos e o da adolescência.
Às vezes ela se perguntava por quanto tempo ele a amaria...
Será que mudaria de sentimentos ao ficar mais velho? E ela,
mudaria de aparência, ficaria feia e gorda e ele não a
quereria mais? E quanto mais olhava para o rosto de efebo
grego ou de anjo renascentista que era ele, mais ela se
angustiava por estar perto de tanta beleza. Sentia-se feia e
comum, uma barata perto de um beija-flor. Achava-se velha para
ele e no fundo do coração temia que ele por sua vez, se
apaixonasse por alguém, como ela se apaixonara por ele.
Desenvolveu tal grau de ansiedade que passou a ter sonhos
recorrentes com ele entrando na igreja, enlaçado à outra
pessoa que não ela.
Tiveram um filho. E isso longe de os aproximar, os afastou.
Ele sentiu o peso da paternidade e da família, a opressão
daquele afeto extremo, o fardo de realizar a felicidade
daqueles dois seres, que aparentemente só respiravam por ele.
E foi se escapando.
Passou a viajar a trabalho, intensamente, ficando longos dias
afastado, respirando a solidão e a preciosa liberdade de ser
quem era, longe das obrigações e dos carinhos forçados. Pois
que agora, os carinhos que proporcionava lhe pareciam
mecânicos, sem alegria e sem prazer. E assim ele foi
deslizando para fora da vida dela, suavemente, gradativamente,
inexoravelmente... e quando ela se deu conta já era tarde.
Brigaram feio uma vez, pois ela descobriu que ele a havia
traído em uma dessas viagens. Ficou profundamente ferida, pois
a ausência durara mais de três meses, nos quais ela amargara
uma solidão terrível, plena de saudades, angústias, peso no
coração e dores nas costas, pelas noites mal dormidas. E
quando ele regressou, a primeira coisa que fez foi contar-lhe
sobre a sua falta, não para vangloriar-se, claro que não, ele
era um homem digno. Mas para acalmar seu próprio anseio, seu
sentimento de culpa, quem sabe. Receoso, talvez de que ela
descobrisse por outras vias. E então lhe contou e o mundo veio
abaixo. Ela reagiu de forma tão intensa e desesperada que ele
ficou sem reação. Sentiu-se quase a submergir nas ondas
profundas e negras daquele sofrimento sem controle e sem
consolo. Assustou-se com a intensidade daquela fúria, e muito
no seu íntimo insinuou-se a idéia de que aquilo não era para
si. Ah! Não. Aquela emoção descabelada, aquele abismo de
sentimentos escuros e pegajo
sos, aquela loucura, vista de relance como através de uma
porta, encheu-o de puro terror. Começou então a planejar sua
fuga. Nada claro ainda, evidentemente. Apenas a sensação de
que deveria correr para salvar-se. Buscar um lugar seguro onde
ficasse fora do alcance daquelas emoções descontroladas. E ela
totalmente absorta no seu sentir, quem sabe até extraindo
algum raro e perverso prazer do temor que via no rosto dele,
nada percebeu do seu retraimento. Devia ter sido mais esperta.
Ele não lhe proporcionou o menor consolo, não se justificou e
nem pediu perdão, não tentou fazer-lhe espontaneamente nenhum
agrado ou carinho. Ficou apenas olhando com aqueles olhos
verdes, abertos, e espantados no fundo dos quais pulsava uma
pequenina chama de ... desprezo, desprazer, qualquer coisa
menos amor. Ela nada viu. Mergulhara em águas fundas e lutava
para voltar à tona e a briga desenrolou-se noite adentro em
forma de monólogo, no qual apenas ela atuava, com uma platéia
composta de um único espectador.
Tiveram muitas outras brigas desse teor. E de cada vez os
olhos dele se esverdeavam mais, abertos em janelas pelas quais
passavam vento e brisa, vento e brisa... Até que ela começou a
agredi-lo para ver se lhe arrancava alguma reação. Bateu nele
uma vez, pegando-o desprevenido e percebeu que ele saltou
ferido, queimado pelo toque e pela agressão. Ela percebeu
então que tinha encontrado uma maneira de ir ao seu encontro
lá naquele mundo para onde ele ia quando a fitava de olhos tão
verdes e tão abertos. Bateu-lhe uma segunda vez, mas ele já
estava preparado e revidou-lhe com dupla violência, marcando
os cinco dedos na face dela, que permaneceu emaciada, roxa e
inchada durante uma semana. Depois disso, ele se refugiou de
vez por trás das janelas esverdeadas, fitando-a de longe como
se por detrás de cortinas de gaze e vendo-a tal como era: uma
louca, uma fúria ciumenta, uma gárgula que vertia fel em vez
de água.
Tinham momentos de trégua, quando o carinho aflorava e os
corpos se reconheciam na dança do amor, e nessas ocasiões ela
pensava que o tinha de volta, que ele regressara e que tudo
poderia ser esquecido e eles seriam felizes outra vez. Mas
para ele eram apenas pequenas fugas, sorrateiras e fugidias,
apenas o hábito e o costume de amar aquele corpo, tocar aquela
carne, cheirar aquela pele que agora tão pouco lhe
significava. E assim eles foram resvalando, cada um para um
lado.
Ela engravidou mais algumas vezes e em todas elas ele se
recusou a deixá-la levar adiante. Não que a obrigasse a
abortar, nada disso, ela ainda era senhora de seu corpo e ele
um cavalheiro que jamais subjugaria uma mulher. Mas seu
alheamento era tal, seu desinteresse tão patente que ela se
obrigava a ir fazer o aborto na esperança de que essa atitude
o comovesse e lhe mostrasse o quanto ela o amava e levava em
consideração seus sentimentos. Ele não ligava a mínima se ela
o fazia ou não. Nem mesmo se interessava pelos aspectos
clínicos da coisa, ela ia sozinha ou com amigas e ele mal
tomava conhecimento. Até que no último, desconfiado talvez da
persistência com que ela teimava em engravidar, ele fez uma
vasectomia.
Ela sentia acercar-se de si longos silêncios e ausências como
se estivesse envolvida em uma grande nuvem de algodão,
embalada para uma longa viagem. Uma viagem sem fim. Tinha a
intuição de que algo grande estava a preparar-se, algo que a
engoliria e a cuspiria numa praia selvagem, nua e sem água,
como um náufrago, sem esperança alguma de retornar. Mas
tolhida de medo, mal conseguia discernir o que viria. E o que
afinal veio foi tudo o que mais temia, pior do que o que mais
temia e a engolfou como uma gigantesca onda, levantou-a do
chão e a atirou de volta com violência e premeditação. Em uma
última briga ele saiu de casa e voltou somente para buscar a
mala.
No dia da partida vendo-o jogar na mala descuidadamente as
camisas e as meias ela lhe implorou. Revoltada e ferida, pois
se considerava a vítima, a esposa leal atraiçoada tantas e
tantas vezes, mesmo assim ela lhe implorou que ficasse, que
não a deixasse, pois sem ele, ela tinha certeza que morreria.
Ele apenas abanava a cabeça ligeiramente irritado, impaciente
como que a tentar se livrar de um inseto importuno. Ele
dirigiu-se para a porta, ela postou-se na frente como a tentar
impedi-lo. Ele com um só braço, o outro carregando a mala,
empurrou-a com branda violência, uma meia brutalidade, se é
que isso é possível e afastou-a para um lado, cruzando o
umbral e desaparecendo na noite, desaparecendo de sua vida, do
seu leito, da sua casa para nunca mais voltar. Ah, não é
verdade. Ele voltou sim, à casa dela. Muitas outras vezes,
como pai, como inimigo, como antagonista, mas jamais como o
amante, o companheiro e o amado que fora.
Como inimigo ele voltou muito em breve. Trouxe-lhe a noticia
de que iria levar o filho para morar com ele e a nova
companheira que tinha agora. Estava tentando reconstruir a
vida, ele dizia. E você deve fazer o mesmo.
Ela aferrou-se ao filho tenazmente. Era tudo o que lhe restava
dele. Era além do mais, o pretexto para vê-lo nas raras
ocasiões em que ele o visitava, pois ele preferia que o filho
viajasse para vê-lo a ter que se encontrar com ela.
E até esta batalha tão elementar ela perdeu. O filho preferiu
o pai a ter que viver com aquela mulher tão sombria, tão
devastada, na qual mal podia reconhecer a mãe.
Ele voltou ainda uma vez, para anunciar-lhe que ia casar-se.
Uma crueldade, segundo ela. Por que tinha que lhe anunciar?
Era para exibir-se talvez? Mostrar-lhe que tudo estava
definitivamente, profundamente enterrado e deixado para trás?
Para ela iniciou-se então uma nova estrada, que agora deveria
trilhar sozinha. E ela que a vida inteira tão só fora, não se
sentia com forças para continuar. Fraquejou, mergulhou de novo
nas ondas negras de suas emoções, sem vontade alguma de
emergir. Enovelada nas dobras de sua autopiedade queria apenas
dormir um longo sono, que tinha como núcleo o sonho de
acordar e tê-lo ali ao pé de si, comovido e morto de culpa por
tê-la magoado tanto. E então ela o perdoava, apertava nos
braços aquele peito amado, sentindo as batidas alucinadas do
coração em tumulto, as lágrimas correndo de uma face à outra,
misturando-se como os fluidos sexuais deles tantas vezes
fizeram.
Mas os dias passavam, os meses passavam, até os anos passaram
e ele não voltou. Ela então teceu outro sonho, o da mulher
vencedora, realizada, auto-suficiente, que lhe apresentaria em
algum momento, para mostrar a ele o que havia perdido. E nesse
sonho ele rastejava ao pé dela, implorava para voltar e ela
com a ponta do sapato o afastava delicadamente, e dizia que
não tinha tempo para isso. Estava muito bem e feliz do jeito
que estava. Esse sonho a envolveu e alimentou por quinze
longos, solitários e vazios anos, até que um dia sem mais nem
menos, sorrateiramente tal como os sonhos costumam fazer,
explodiu, desapareceu sem deixar sequer fumaça e ela acordou.