A casa dos grandes pensadores
 
 
    

GLENER OCHIUSSI

 

 

American Way of life *

No momento todas as atenções se voltam para as eleições norte-americanas, a priori seria somente mais uma alternância de poder em um país que responde por grande parte das transações econômicas mundiais. Porém há algo de inusitado no pleito vindouro: um candidato de ascendência negra possui reais chances de se eleger presidente dos Estados Unidos da América. Este artigo tem por finalidade trilhar a trajetória do negro norte-americano, desde os idos coloniais até sua história atual, tendo como pressuposto básico analisar o quadro histórico-social ao qual está inserido Barack Obama.

 “Todos os homens foram criados iguais e são dotados de certos direitos inalienáveis, entre os quais a liberdade [...]” A citação é de Thomas Jefferson, o principal idealizador da Declaração de Independência (1776) dos Estados Unidos da América.  Apesar do tom libertário e da ideologia igualitária a qual foi inspirada, a declaração de independência de nossos vizinhos do norte privou a inserção da maioria da população no regime então instaurado. De acordo com o historiador brasileiro Leandro Karnal, o movimento de independência foi por si só, contraditório. Os percussores da independência eram os grandes fazendeiros e comerciantes, ou seja, a elite, a essa interessava o comércio sem restrição da antiga metrópole, deste modo o processo de separação entre colônia e metrópole somente a esses beneficiou. Grande parte da população do Sul [cerca de 600 mil] eram negros trazidos da África para trabalhar na monocultura algodoeira, a esses não cabia o benefício da igualdade.

Em meados do século XIX, os EUA passavam por um progressivo processo de desenvolvimento econômico e político, o norte era responsável pela produção industrial voltada principalmente para a manufatura fabril e pleiteava o próspero mercado consumidor de negros libertos, o sul respondia por boa parte do algodão do mundo, com uma economia enraizada na monocultura e em sua sociedade escravista. Estas divergências ocasionaram a chamada Guerra de Secessão (1861-1865), um confronto civil entre norte/sul. “Em todos os sistemas sociais, é preciso haver uma classe para desempenhar as tarefas indignas, para fazer o que é monótono e desagradável [...](Trecho do discurso do Senador Hammond, da Carolina do Sul). Hammond ilustra o pensamento intrínseco dos estados sulistas durante o período, apesar de sua retórica poética e humanista, o sul é derrotado. A abolição da escravatura se consolida tempos depois. 

O partido Anti-Federalista ou Democrata tem sua gênese neste período [Séc. XIX] no bloco norte dos Estados Unidos. A associação Anti-Federalista, nome dado na época, tinha como bandeira política a defesa dos trabalhadores, o direito dos estados e ações voltadas para a agricultura, congregava em seu núcleo: pequenos comerciantes, operários e proprietários rurais. Contrariando assim os interesses do partido Federalista ou Republicano, formado por: banqueiros, industriais e grandes comerciantes.  Mesmo diante da formação de duas grandes máquinas partidárias, os interesses da maioria da população pobre ainda não eram representados, os negros continuavam segregados.

Até que em 1955, uma mulher negra se negou a ceder seu lugar no ônibus para uma branca, Rosa Parks que era afro-descendente foi presa. Foi o estopim para que as lideranças afro-americanas se organizassem para protestar contra a segregação racial nos EUA, dentre os líderes destaque para Martin Luther King, conhecido por seu famoso discurso “I have a dream” (Eu tenho um Sonho). Foram 381 dias de protestos, a população branca assistia a tudo com receio, não entendiam – em pleno século XX e no país mais rico do mundo – por que os negros protestavam.  O chamado movimento negro dos anos 60 fundou as bases políticas e sociais para que o negro começasse sua longa caminhada na sociedade norte-americana.

Ecos do passado ainda ressoam no presente, atualmente a sociedade norte-americana ainda possui resquícios segregacionistas, principalmente em relação à população de baixa renda e aos imigrantes (latinos, chineses, etc.).  Barack Obama, candidato do partido democrata, surge positivamente na cena política para tentar amenizar os paradigmas relacionados à segregação racial ou social, que ainda atormentam a mais antiga democracia da América. Entretanto, independentemente de quem for eleito, o futuro presidente dos EUA terá pela frente tarefas um tanto quanto complexas, tais como: amenização de uma recessão econômica com foco no mercado imobiliário, as perdulárias guerras do Afeganistão e do Iraque, mediação das imigrações ilegais, etc. Diante destas problemáticas o futuro presidente se comportará como todo presidente Norte-Americano sejam eles negros ou brancos - democratas ou republicanos. Se você leitor interpreta a possível eleição de Obama como uma reparação histórica para com a população negra dos EUA, sinto lhe surrupiar as esperanças. Barack Obama pode sim amenizar as diferenças entre brancos/negros no norte de nosso continente, porém irá fazer política, como qualquer outro presidente a faz, para uma minoria historicamente privilegiada.  São nuances da história, aceite-a.

*Estilo de vida Americano

Dicas da Coluna:

Para ver:  CRASH, no limite – 113 min. EUA. 2004- Direção: Paul Haggis

Para ler:  AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA  - Editora; Paz  e Terra – Autor: Eduardo Galeano

Glener Ochiussi

Graduando em História pela faculdade Dom Bosco / Membro da equipe de História do colégio Genaro Domarco - Mirassol / SP

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 11/09/2008