A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

MULHERES SÃO HOLDIND             

               Estamos acostumados a ouvir a palavra holding, relacionada ao mundo empresarial, como aquela instituição que sustenta um grupo de empresas, ou em uma linguagem mais popular a nave mãe em uma organização. Eu tenho verdadeiro encanto por esta palavra, e em português , a tradução mais adequada seria sustentação ou até fortaleza.

              Na minha área, ela foi lançada por Winnicot, um brilhante estudioso da psicologia, que dedicou-se a desvendar a relação da mãe com o bebê e suas funções neste desafio tão humano. Ele afirma que a principal função materna é proporcionar esta holding , o sentimento de segurança e estabilidade nos cuidados, a atenção no momento certo de amenizar a fome, a sede, de aliviar a pele das assaduras e o corpo da sensação aterrorizante de não se perceber os limites. O não atendimento adequado destes detalhes na rotina de uma criança pequena, gera um verdadeiro caos psíquico por ser incapaz de se manter e tranquilizar sozinho.

             Exatamente estas são as nossas necessidades de sobrevivência, além do indispensável toque humano, da carícia na pele, que pouco a pouco vão construindo nossa própria imagem, apresentando os limites entre o nosso corpo e a mãe, que neste momento é o próprio mundo. Nesta primitiva relação construímos uma matriz emocional que irá reger nossas reações afetivas por toda nossa trajetória. São marcas fortes, de origem química, padrões que determinam nossa postura adulta perante os relacionamentos, a paciência e tolerância que hoje temos à disposição, nasceram na relação com a amamentação, na espera do leite ou do colo acolhedor.

           Um detalhe importante nestas colocações, que eu concordo com Winnicot, é que mãe nem sempre é a mãe! Mãe é uma função! É uma holding que pode perfeitamente ser assumida por outra pessoa, desde que tenha as características necessárias para dar sustentação. Os seios são a melhor fonte de alimentação, é indiscutível. Mas uma mamadeira dada com ternura, no aconchego do colo, é bem melhor que uma mãe irritada, com dor e sem a mínima disposição para esta tarefa. É uma verdadeira tortura a que são submetidas algumas mulheres que não vibram com a maternidade e se obrigam a exercê-la sem paixão.

            As mulheres carregam ao longo da história, o peso desta exigência de serem verdadeiras e infalíveis holding, fortalezas humanas dotadas de seios que justificam a missão de mãe . Mas vamos reavaliar a atualidade desta imposição começando por aceitar que mãe é realmente uma função ! Vemos no dia a dia homens que são mães maravilhosas, preparam e dão as mamadeiras, trocam as fraldas com perfeição, cantam para o bebê dormir, pais que ficam com a guarda dos filhos, que levam ao pediatra, participam das reuniões na escola, passeiam no parque, conversam sobre sexo, preparam o jantar. Enfim...São uma holding! 

           Esta é a maior e grande conquista feminina, que deve ser comemorada com justificada alegria. Mulheres sensatas, bem resolvidas, não querem superar os homens, eles são nossos maiores e competentes aliados. Podemos delegar à eles boa parte desta missão materna, sem culpa nenhuma. Não me parece uma atitude de se livrar de uma responsabilidade, mas sim de reconhecer nossos limites e a evolução da competência masculina na maternagem. E de bônus, minimizar a tão falada inveja .

           Mas por medida de segurança, vale dar uma espiadinha no histórico da relação dele com a mãe... Sogra é sempre sogra, mesmo sendo a mãe !

Fátima Pilla Muller

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 03/03/2008