A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

LIÇÕES DA MELHOR IDADE
 
                   Meu trabalho com as pessoas e suas dores emocionais, é um processo constante de análise e autocrítica, reflexão e aprendizagem. As pessoas me surpreendem diariamente e quase sempre de uma forma positiva, especialmente depois que passei a atender jovens da terceira idade, ou melhor idade, que corresponde ao entusiasmo com que os pós 60 vem levando a vida.
 
                   As lições que venho recebendo desta turma, é algo emocionante, me encanta vislumbrar um futuro repleto de desprendimento de tantas falsas verdades que nos foram impostas e que por vezes, carregamos como um fardo do qual jamais poderíamos nos desvencilhar. Década após década, assisti queridos velhinhos, cheios de potencial de saúde e alegria, se entregarem à espera passiva do final , não tinham forças para se rebelar contra o escanteio no qual eram depositados pela família e por si mesmos.
 
                 Percebo hoje uma verdadeira revolução da melhor idade, que está provocando uma evolução humana, valorizando a experiência, o tempo de estrada, uma admiração às rugas que traduzem as marcas de nossa história no próprio corpo, sem medo e sem culpa. E, se incomodarem, porque não uma visita ao cirurgião plástico ? Apenas uma esticadinha ... Como se desejassem trilhar uma estrada como menos buraco, mais conforto e satisfação na viagem, merecidamente.
 
                Eles redescobriram o amor e a paixão , a paquera nas noites de baile, mandar torpedos , andar no parque de mãos dadas, fazer sexo com soltura e um prazer genuíno de quem quer apenas amar e nada mais. Despediram-se das ansiedades e pressões da juventude, cuidam dos netos quando tem a agenda disponível e não fazem deles o centro de seu dia a dia. Os filhos estão surpresos, não se fazem mais "velhinhos" como antigamente ! Graças à Deus !
 
                Fico satisfeita quando eles reclamam dos amigos doentes e hospitalizados, a falta de disposição para visitá-los, ou passar dias cuidando com resignação. Na verdade estão se queixando daqueles que não reagem ao estigma da idade, que tornam a doença a única fonte para receber atenção e cuidados. Isto não é o fim da solidariedade, é auto preservação, é uma nova escolha de estilo de vida, que há algum tempo, para eles , era dada a rotina de visitar e cuidar dos doentes, colocar flores no cemitério, fazer tricô para creches de bebês carentes.
 
               Vibro intensamente ao ler notícias como a de uma idosa italiana de 85 anos, que fugiu do marido e foi para a casa do filho, porque não tinham relações sexuais há quinze dias ! Posso imaginar a energia de vida desta mulher para batalhar algo assim... Nesta área específica, podemos dizer que o Viagra deu uma força, mas não há Viagra que funcione se não houver dentro de nós uma determinação, uma atitude para viver intensamente e em plenitude o fruto de todos os investimentos que realizamos na nossa caminhada.
 
             Com estas colocações creio vital, começarmos agora, uma nova postura frente a última fase de nossas vidas. Não só em relação a como vamos usufruir desta etapa com mais prazer e gratificação, quando ela se aproximar, mas também como podemos contribuir para que estas pessoas da melhor idade descubram alternativas  e sejam felizes . Precisamos deixar de lado preconceitos e o egoísmo de querê-los fazendo tarefas que não temos paciência. Eles já tiveram demais com a gente ! É hora de retribuir e depositar um tanto de ternura e incentivo  para a felicidade deles.

Fátima Pilla Muller  - Novembro/2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 12/11/2007