LIÇÕES DA MELHOR IDADE
Meu trabalho com as pessoas e suas
dores emocionais, é um processo constante de análise e
autocrítica, reflexão e aprendizagem. As pessoas me
surpreendem diariamente e quase sempre de uma forma
positiva, especialmente depois que passei a atender
jovens da terceira idade, ou melhor idade, que
corresponde ao entusiasmo com que os pós 60 vem
levando a vida.
As lições que venho recebendo desta
turma, é algo emocionante, me encanta vislumbrar um
futuro repleto de desprendimento de tantas falsas
verdades que nos foram impostas e que por vezes,
carregamos como um fardo do qual jamais poderíamos nos
desvencilhar. Década após década, assisti queridos
velhinhos, cheios de potencial de saúde e alegria, se
entregarem à espera passiva do final , não tinham
forças para se rebelar contra o escanteio no qual eram
depositados pela família e por si mesmos.
Percebo hoje uma verdadeira revolução
da melhor idade, que está provocando uma evolução
humana, valorizando a experiência, o tempo de estrada,
uma admiração às rugas que traduzem as marcas de nossa
história no próprio corpo, sem medo e sem culpa. E, se
incomodarem, porque não uma visita ao cirurgião
plástico ? Apenas uma esticadinha ... Como se
desejassem trilhar uma estrada como menos buraco, mais
conforto e satisfação na viagem, merecidamente.
Eles redescobriram o amor e a paixão ,
a paquera nas noites de baile, mandar torpedos , andar
no parque de mãos dadas, fazer sexo com soltura e um
prazer genuíno de quem quer apenas amar e nada mais.
Despediram-se das ansiedades e pressões da juventude,
cuidam dos netos quando tem a agenda disponível e não
fazem deles o centro de seu dia a dia. Os filhos estão
surpresos, não se fazem mais "velhinhos" como
antigamente ! Graças à Deus !
Fico satisfeita quando eles reclamam
dos amigos doentes e hospitalizados, a falta de
disposição para visitá-los, ou passar dias cuidando
com resignação. Na verdade estão se queixando daqueles
que não reagem ao estigma da idade, que tornam a
doença a única fonte para receber atenção e cuidados.
Isto não é o fim da solidariedade, é auto preservação,
é uma nova escolha de estilo de vida, que há algum
tempo, para eles , era dada a rotina de visitar e
cuidar dos doentes, colocar flores no cemitério, fazer
tricô para creches de bebês carentes.
Vibro intensamente ao ler notícias como
a de uma idosa italiana de 85 anos, que fugiu do
marido e foi para a casa do filho, porque não tinham
relações sexuais há quinze dias ! Posso imaginar a
energia de vida desta mulher para batalhar algo
assim... Nesta área específica, podemos dizer que o
Viagra deu uma força, mas não há Viagra que funcione
se não houver dentro de nós uma determinação, uma
atitude para viver intensamente e em plenitude o fruto
de todos os investimentos que realizamos na nossa
caminhada.
Com estas colocações creio vital,
começarmos agora, uma nova postura frente a última
fase de nossas vidas. Não só em relação a como vamos
usufruir desta etapa com mais prazer e gratificação,
quando ela se aproximar, mas também como podemos
contribuir para que estas pessoas da melhor idade
descubram alternativas e sejam felizes . Precisamos
deixar de lado preconceitos e o egoísmo de querê-los
fazendo tarefas que não temos paciência. Eles já
tiveram demais com a gente ! É hora de retribuir e
depositar um tanto de ternura e incentivo para a
felicidade deles.
Fátima Pilla Muller - Novembro/2007