A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

Da Minha Sacada
 
           Creio morar em um lugar privilegiado em minha cidade, tenho como parceiros um rio onde acontece diariamente o pôr do sol mais lindo do mundo, emoldurado por um parque de verde imenso,  que se vai até onde o concreto se impõe e, felizmente, meus olhos pouco alcançam. Fixo meu olhar nas matizes que o sol me presenteia como um criativo artista, que a cada dia pinta um quadro tocante , são nuvens calmas de um rosado apaixonante que se alastra até o laranja afetuoso.O rio veste-se de prata ao dourado, num convidativo ballet sensual para dançarmos esquecidos do mundo e mergulhados em sonhos.
 
           Há dias de temporais como em meu ser denso também acontece, cinzento e pesado, o céu torna-se ameaçador refletindo sentimentos de dor e revolta, indignação e perplexidade, permaneço imóvel aguardando a chegada da chuva indignada que se aproxima ameaçadora.Mas carrega consigo a esperança de lavar a dor em um aguaceiro intenso, limpeza profunda da alma. Nunca sabemos que estragos  um temporal, com seus ventos e enxurradas é capaz de fazer, sabemos que é capaz até  de matar. Assim como o amor ... E todos os revoltados sentimentos da paixão decepcionada.
 
          Desta mesma sacada em que tenho a magia do pôr do sol, a fúria do vendaval que me fascina e intimida , que reflete descaradamente meus sentimentos , tenho uma parcela do mundo, do que acontece fora deste casulo que cultivo como a mim mesma. Minha casa é um ninho de paz como creio que deveriam ser todas as casas. Com perfume de harmonia e luz de alegria, o chegar com saudade de cada canto que contém um afeto, uma vibração energética, uma história enfim...Tudo se resume a detalhes, pequenos detalhes que fazem a felicidade.
 
        E, esta felicidade, não está atrelada ao poder, bens , posse ou ao número de metros quadradros de um lar e, sim a uma conquista interna de amor próprio, da aquisação da sabedoria de se mimar e proporcionar prazer genuíno a si mesmo, em cada detalhe do dia a dia. A minha sacada me deu lições de vida, que nenhuma faculdade até hoje pode me dar. Assisti a vibração de casais apaixonados entre flores, a ousadia dos ladrões de carros, torcedores eufóricos saindo do estádio aqui perto, passeatas de protestos, o som dos pássaros que insistem em sobreviver no parque, as luzes eletrizantes de uma roda gigante que flutua por entre as árvores e me leva por mágicos pensamentos.
 
        Por fim, da minha sacada,  a inesquecível cena de uma família "almoçando fora"... Fui usufruir minha paisagem e me deparei com uma família almoçando na calçada em frente ao meu prédio. Pai, mãe , três filhos e uma carroça. Senti-me constrangida olhando, como se eu estivesse invadindo a privacidade daquelas pessoas, estavam felizes, tinham catado do lixo a refeição daquele dia. Sentados sobre pedras que demarcavam o estacionamento, compartilhavam alegres, os restos que nós tínhamos jogado no lixo.
 
       Estavam visivelmente felizes, sim ! E, eu amenizei meu constrangimento, porque lembrei que tudo aquilo que não me serve mais, eu dispenso em embalagens adequadas, como minhas emoções esgotadas, sempre ensinei meus filhos desde pequenos que existem pessoas, que sobrevivem daquilo que não nos serve mais e, precisamos ter respeito por esta realidade, por mais dolorosa que possa ser. Negar ou fugir não é uma boa estratégia, mesmo que tenhamos, como parceiros no dia a dia, o pôr do sol mais lindo do mundo !
 

Fátima Pilla Muller  - Novembro/2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 06/11/2007