Da Minha Sacada
Creio morar em
um lugar privilegiado em minha cidade, tenho como
parceiros um rio onde acontece diariamente o pôr do
sol mais lindo do mundo, emoldurado por um parque de
verde imenso, que se vai até onde o concreto se impõe
e, felizmente, meus olhos pouco alcançam. Fixo meu
olhar nas matizes que o sol me presenteia como um
criativo artista, que a cada dia pinta um quadro
tocante , são nuvens calmas de um rosado apaixonante
que se alastra até o laranja afetuoso.O rio veste-se
de prata ao dourado, num convidativo ballet sensual
para dançarmos esquecidos do mundo e mergulhados em
sonhos.
Há dias de
temporais como em meu ser denso também acontece,
cinzento e pesado, o céu torna-se ameaçador refletindo
sentimentos de dor e revolta, indignação e
perplexidade, permaneço imóvel aguardando a chegada da
chuva indignada que se aproxima ameaçadora.Mas carrega
consigo a esperança de lavar a dor em um aguaceiro
intenso, limpeza profunda da alma. Nunca sabemos que
estragos um temporal, com seus ventos e enxurradas é
capaz de fazer, sabemos que é capaz até de matar.
Assim como o amor ... E todos os revoltados
sentimentos da paixão decepcionada.
Desta mesma
sacada em que tenho a magia do pôr do sol, a fúria do
vendaval que me fascina e intimida , que reflete descaradamente meus
sentimentos , tenho uma parcela do mundo, do que
acontece fora deste casulo que cultivo como a mim
mesma. Minha casa é um ninho de paz como creio que
deveriam ser todas as casas. Com perfume de harmonia e
luz de alegria, o chegar com saudade de cada canto que
contém um afeto, uma vibração energética, uma história
enfim...Tudo se resume a detalhes, pequenos detalhes
que fazem a felicidade.
E, esta
felicidade, não está atrelada ao poder, bens , posse
ou ao número de metros quadradros de um lar e, sim a
uma conquista interna de amor próprio, da aquisação da
sabedoria de se mimar e proporcionar prazer genuíno a
si mesmo, em cada detalhe do dia a dia. A minha sacada
me deu lições de vida, que nenhuma faculdade até hoje
pode me dar. Assisti a vibração de casais apaixonados
entre flores, a ousadia dos ladrões de carros,
torcedores eufóricos saindo do estádio aqui perto,
passeatas de protestos, o som dos pássaros que
insistem em sobreviver no parque, as luzes
eletrizantes de uma roda gigante que flutua por entre
as árvores e me leva por mágicos pensamentos.
Por fim, da minha
sacada, a inesquecível cena de uma família "almoçando
fora"... Fui usufruir minha paisagem e me deparei com
uma família almoçando na calçada em frente ao meu
prédio. Pai, mãe , três filhos e uma carroça. Senti-me
constrangida olhando, como se eu estivesse invadindo a
privacidade daquelas pessoas, estavam felizes, tinham
catado do lixo a refeição daquele dia. Sentados sobre
pedras que demarcavam o estacionamento, compartilhavam
alegres, os restos que nós tínhamos jogado no lixo.
Estavam
visivelmente felizes, sim ! E, eu amenizei meu
constrangimento, porque lembrei que tudo aquilo que
não me serve mais, eu dispenso em embalagens
adequadas, como minhas emoções esgotadas, sempre
ensinei meus filhos desde pequenos que existem
pessoas, que sobrevivem daquilo que não nos serve mais
e, precisamos ter respeito por esta realidade, por
mais dolorosa que possa ser. Negar ou fugir não é uma
boa estratégia, mesmo que tenhamos, como parceiros no
dia a dia, o pôr do sol mais lindo do mundo !
Fátima Pilla Muller - Novembro/2007