Lembro-me
tanto quando eu era pequena e minha avó me dizia, quando eu
me desentendia com uma amiga ou terminava um namoro, "antes
só do que mal acompanhada "... À época, eu ainda muito
guria, não conseguia compreender a amplitude e verdade
destas palavras que reúnem grande sabedoria. Me faltava
aquela longa estrada que ela já tinha percorrido, repleta
de desafios, encontros e partidas.
Agora que percorri, boa parte do meu caminho, provavelmente
a metade ou mais, retomo vez e outra, aqueles ensinamentos.
Pois o "antes só do que mal acompanhada", tem me consolado,
bem mais do que eu jamais imaginei. Sempre fui uma pessoa
afetiva, que gosta de mimar, de ser alegre e fazer sorrir,
primo pelo bom humor desde que acordo até a hora de dormir.
Adoro presentear, satisfazer o desejo daqueles que quero
bem, surpreender com um carinho, estar rodeada de gente.
Uma colega de trabalho me deu um mimo inesquecível, fui
viajar uns dias e quando eu voltei ela me disse "isto aqui é
um tédio, quando tu não estás"... Fiquei extremamente feliz
!
Faço todos estes gestos sem a intenção objetiva de ser
retribuída, porque mimar alguém me faz contente, me dá um
prazer puro e simples, se vier um retorno então, flutuo na
satisfação. É uma maneira altruísta de falar, porque no
fundo, todo mundo espera ter um retorno dos seus
investimentos afetivos, ninguém se gratifica em entrar no
negativo na sua conta de ternura. Quem investe quer juros e
correção generosa de suas aplicações.
Concordo
! Mas esta estrada linda que percorri, com suas
paisagens ensolaradas, fascinantes, mas com abismos e
temporais, também me ensinou que os afetos nem sempre fluem
numa justa proporção do investimento feito. A cada perda de
um amigo, de um amor que se distancia, vamos aprendendo a
contar com nossos próprios recursos internos. Antes
buscávamos correndo um colo, uma acolhida aos nossos
sentimentos de abandono como se não pudéssemos suportar
sozinhos este saque devastador que a vida nos faz, como se
os objetos de nosso amor levassem consigo a energia que nos
mantém vivos.
É
neste momento que nos deparamos com todo nosso potencial de
sobrevivência, que precisamos contar com nossas condições
internas, nosso estoque de carinhos e auto estima. com a fé
e a esperança. Especialmente a esperança.... A capacidade de
esperar por dias melhores, por amores maiores, por amigos
leais, não necessariamente lucrar com o investimento, mas
empatar , é uma justa expectativa. Afinal, a dor da perda é
inevitável, é do crescimento, que nos torna fortes o
bastante, para investir mais uma vez.
Neste espaço de perda, para a construção de um novo vínculo,
nos deparamos com a solidão. Para muitas pessoas uma
sensação assustadora ou insuportável de realizar este
confronto consigo mesma, por vezes, doloroso demais. A
necessidade imediata de um balanço nas contas, uma avaliação
dos investimentos realizados. E o saldo...Quase sempre cruel
ao estampar o resultado. Não apresenta o esperado azul,
muito menos cor de rosa como pensávamos.
Como
num passe de mágica, o tempo torna-se o maior aliado na
guerrilha contra a dor e a recuperação do amor próprio.
Permitimos que a solidão se aconchegue às nossas noites,
transformando-se em uma surpreendente e agradável companhia.
Redescobrimos prazeres esquecidos, livros abandonados,
músicas alegres, pessoas divertidas e poesias de suave
prazer . A solidão nos dá um presente inestimável que se
chama lucidez, no começo pode doer mas vale abraçá-la.
Depois deste momento doloroso, descobriremos a paz, faremos
as pazes conosco, com nossos sonhos e objetivos, estratégias
e expectativas, a vida se ilumina ...
Resgatamos na memória recursos eficazes que nos dão força e
alegria para reconstruir algo muito, muito melhor do que
tínhamos. Descobrimos que nosso melhor amigo somos nós
mesmos. Que só nós podemos determinar a alegria de um dia, a
intensidade de um sentimento, e o encanto com a nossa
companhia. E nem podíamos imaginar..."Antes só do que mal
acompanhada" ! É bom gostar de mim, de me agradar e me
permitir ser feliz, exatamente como eu sou.
Fátima Pilla
Muller - junho / 2007
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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06/06/2007

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