A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

ANTES SÓ....

                 Lembro-me tanto quando eu era pequena e minha avó me dizia, quando eu me desentendia com uma amiga ou terminava um namoro, "antes só do que mal acompanhada "... À época, eu ainda muito guria, não conseguia compreender a amplitude e verdade destas palavras que reúnem grande sabedoria. Me faltava aquela longa estrada que  ela já tinha percorrido, repleta de desafios, encontros e partidas.

               Agora que percorri, boa parte do meu caminho, provavelmente a metade ou mais, retomo vez e outra, aqueles ensinamentos. Pois o "antes só do que mal acompanhada", tem me consolado, bem mais do que eu jamais imaginei. Sempre fui uma pessoa afetiva, que gosta de mimar, de ser alegre e fazer sorrir, primo pelo bom humor desde que acordo até a hora de dormir. Adoro presentear, satisfazer o desejo daqueles que quero bem, surpreender com um carinho, estar rodeada de gente.  Uma colega de trabalho me deu um mimo inesquecível, fui viajar uns dias e quando eu voltei ela me disse "isto aqui é um tédio, quando tu não estás"... Fiquei extremamente feliz !

             Faço todos estes gestos sem a intenção objetiva de ser retribuída, porque mimar alguém me faz contente, me dá um prazer puro e simples, se vier um retorno então, flutuo na satisfação. É uma maneira altruísta de falar, porque no fundo, todo mundo espera ter um retorno dos seus investimentos afetivos, ninguém se gratifica em entrar no negativo na sua conta de ternura. Quem investe quer juros e correção generosa de suas aplicações.

           Concordo ! Mas esta estrada linda que percorri, com suas paisagens ensolaradas, fascinantes, mas com abismos e temporais, também me ensinou que os afetos nem sempre fluem numa justa proporção do investimento feito. A cada perda de um amigo, de um amor que se distancia, vamos aprendendo a contar com nossos próprios recursos internos. Antes buscávamos correndo um colo, uma acolhida aos nossos sentimentos de abandono como se não pudéssemos suportar sozinhos este saque devastador que a vida nos faz, como se os objetos de nosso amor levassem consigo a energia que nos mantém vivos.

          É neste momento que nos deparamos com todo nosso potencial de sobrevivência, que precisamos contar com nossas condições internas, nosso estoque de carinhos e auto estima. com a fé e a esperança. Especialmente a esperança.... A capacidade de esperar por dias melhores, por amores maiores, por amigos leais, não necessariamente lucrar com o investimento, mas empatar , é uma justa expectativa. Afinal, a dor da perda é inevitável, é do crescimento, que nos torna fortes o bastante, para investir mais uma vez.

          Neste espaço de perda, para a construção de um novo vínculo, nos deparamos com a solidão. Para muitas pessoas uma sensação assustadora ou insuportável de realizar este confronto consigo mesma, por vezes, doloroso demais. A necessidade imediata de um balanço nas contas, uma avaliação dos investimentos realizados. E o saldo...Quase sempre cruel ao estampar o resultado. Não apresenta o esperado azul, muito menos cor de rosa como pensávamos.

        Como num passe de mágica, o tempo torna-se o maior aliado na guerrilha contra a dor e a recuperação do amor próprio. Permitimos que a solidão se aconchegue às nossas noites, transformando-se em uma surpreendente e agradável companhia. Redescobrimos prazeres esquecidos, livros abandonados, músicas alegres, pessoas divertidas e poesias de suave prazer . A solidão nos dá um presente inestimável que se chama lucidez, no começo pode doer mas vale abraçá-la. Depois deste momento doloroso, descobriremos a paz, faremos as pazes conosco, com nossos sonhos e objetivos, estratégias e expectativas, a vida se ilumina ...

       Resgatamos na memória recursos eficazes que nos dão força e alegria para reconstruir algo muito, muito melhor do que tínhamos. Descobrimos que nosso melhor amigo somos nós mesmos. Que só nós podemos determinar a alegria de um dia, a intensidade de um sentimento, e o encanto com a nossa companhia. E nem podíamos imaginar..."Antes só do que mal acompanhada" ! É bom gostar de mim, de me agradar e me permitir ser feliz, exatamente como eu sou.

 Fátima Pilla Muller - junho / 2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 06/06/2007