A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

A FERA QUE MORA EM NÓS
                A morte brutal da menina Isabella comoveu o país, inclusive porque ela é mais um caso de agressão infantil, que ocorre às centenas pelos lares brasileiros. No momento que um crime destes vem imediatamente à público, sendo transmitida ao vivo, a sequência dos fatos, mobiliza fortemente os sentimentos de repulsa e vingança aos agressores, bem mais do que o de solidariedade.
               Embora eu tenha a minha tese, do que pode ter acontecido entre as paredes do apartamento do pai, com a companheira dele e os irmãos menores, prefiro me deter ao fato da agressão infantil ser algo comum em nossos lares, por mais que esta constatação, possa chocar as pessoas.
               Há alguns anos, li um estudo de uma psicóloga gaúcha, realizado no Hospital de Pronto Socorro aqui em Porto Alegre, sobre acidentes infantis. O resultado deste estudo foi triste, constatou-se que a maior parte do que era considerado "acidente doméstico", na verdade resultava de agressões e espancamentos, mascarados pelos pais. Como os médicos que atendem, nem sempre, estão preparados para levantar estes dados "subjetivos do acidente", eles acabam passando para os registros como tal.
              Eu mesma , presenciei no meu consultório, casos em que as crianças foram espancadas pelos pais, mutiladas em uma situação em que os dentes foram arrancados de um bebê, e um menino cuja mãe o repreendia queimando os braços com a brasa do cigarro. O mais impressionante, é que eram pais esclarecidos aparentemente, com formação superior, um bom padrão de vida. Em princípio, acima de qualquer suspeita.
             As crianças espancadas e agredidas , se tornam retraídas como meio de defesa e sobrevivência, acatam os maus tratos para fugir à indiferença. Elas não reconhecem a gravidade e a dor da agressão, porque não suportariam continuar convivendo com os pais que a maltratam , e temem o abandono em uma instituição ou algo parecido, e até são ameaçadas para que não falem. O mesmo com crianças abusadas, a maioria leva anos para denunciar o abuso, quando denunciam. Em geral, o pai ou padrasto abusam, com a conivência da mãe.
           Portanto, com este contexto silencioso e cúmplice a criança , enquanto sobrevive com as marcas da agressão física, tapando-as com as roupas, vai deteriorando emocionalmente, porque se as pessoas mais importantes de sua vida , os pais a tratam desta maneira, o que ela pode esperar do resto do mundo ? Em que ela pode confiar para se manter viva ? Certamente se questiona, será que existe colo, proteção, afagos que ela assiste na TV ?
           Mora uma fera dentro de cada um de nós, uma fera que pode cometer atrocidades como esta da menina Isabella com evidentes requintes de crueldade, a ponto de ter  calma para cortar uma tela de proteção, primeiro com uma faca, depois com uma tesoura e jogá-la do sexto andar. Esta é uma realidade que acontece no nosso cotidiano e muitas vezes nos mantemos distantes.
         Agora está mais do que na hora de usarmos a nossa fera no sentido de competência e força, de alcançar resultados no combate à agressão infantil. Temos que parar de nos omitir quando ouvimos brigas e crianças chorando ou pedindo ajuda, nos apartamentos vizinhos. É necessário tomar uma atitude ! Ligar para o disque denúncia, chamar o 190, ou vamos esperar pela missa de sétimo dia para sermos solidários ?
        É necessário um movimento em todo país, colocar a mídia em ação, treinar médicos e atendentes de hospitais para identificar os sinais de maus tratos, informar os professores nas escolas, responsabilizar os omissos, porque quem se esquiva de denunciar um fato destes, sem dúvida é cúmplice ! Precisamos adotar uma postura preventiva, não permitir que situações assim se repitam indefinidamente, até porque, mesmo sobrevivendo restará muito pouco desta criança, talvez apenas um fio de esperança.

 Fátima Pilla Muller

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 08/04/2008