A casa dos grandes pensadores
 
 
 

FÁTIMA PILLA MÜLLER

 

A CURA PELO TEMPO

                     Estes dias refletindo sobre alguns problemas, lembrei-me de uma frase que minha avó dizia com frequência, quando eu me encontrava aborrecida. Ela falava : "nada que o tempo não cure". Eu era uma guria, com uma década e alguns anos de vida, não tinha muita noção de que tempo ela falava, do alto dos seus quase setenta anos. Mas eu a admirava tanto, aquela calma inabalável, um caminhar sereno e os olhos verdes cheios de sabedoria e paz, que era impossível não acreditar que ali morava uma grande verdade.

                   Ela também me ensinou a ter fé, a rezar, especialmente para meu anjo da guarda, sempre antes de dormir. Este ritual me preenchia de paz e segurança, eu acreditava que ele zelava meu sono. O mesmo ensinei aos meus filhos, que como eu, desenvolveram uma fé sólida, cada um a sua maneira, mas acima de tudo crêem em algo maior, divino e poderoso.

                  Conheço tantas pessoas que não tem fé, que se desesperam sem esperanças, porque não acreditam em nada, talvez nem em si mesmas. Sinto-me privilegiada por ter fé e acreditar que junto à ela, o tempo cura tudo. E, na medida que foi passando, hoje são várias décadas, minha fé é cada vez mais forte, acredito em milagres, porque eles já aconteceram comigo, quando o que eu mais precisava chegava em minhas mãos, exatamente na hora certa, quando tudo parecia estar perdido, é aquela chama que nunca se apaga, nem frente a maior tempestade.

                 Este é um fenômeno mágico, que dificilmente se pode explicar, a não ser pela fé pura e simples, que brota em nosso coração com uma força de luz, que nos enche de coragem para retomar a vida com mais garra e dedicação, compaixão e solidariedade. Pode ser que apenas o tempo nos de esta capacidade de usufruir da fé intensamente, é preciso viver com plenitude, amar cada amanhecer como se fosse o último, tolerar as limitações daqueles que amamos e convivemos, compartilhar o exercício desta fé, encorajar o ato de perdoar verdadeiramente. É a evolução de nosso ser que o tempo nos presenteia generosamente.

               Posso testemunhar convictamente que o tempo curou grande parte das minhas dores e mágoas, e a fé transformou-as em gratidão pelo aprendizado. E, não foram poucas as dores e perdas que tive, mas jamais perdi minha fé em dias melhores e na minha capacidade de reconstruir meus alicerces. Aprendi também, de tempos em tempos, a rever minhas companhias, ou aqueles que pensei serem meus amigos, reavaliar meu jeito de ser, abrir mão daquilo que me desgasta, estressa, fugir dos mentirosos e egoístas, pessoas de energia ruim. Exatamente aqueles queixosos, que sugam vorazmente e nada retribuem.

            A cada década, a felicidade interior se aprimora, é lúcida, transparente, sinto-me acompanhada por pessoas iluminadas, poucas pessoas, gosto de tudo que faço, do meu trabalho, cuidar da casa e dos filhos, receber os amigos, escrever e  faço com um prazer genuíno. Esquivo-me das coisas que me desagradam, não presto atenção nas páginas policiais e nem assisto filmes de violência ou terror, porque me deprime. Acredito demais que aquilo que ingerimos por todos os sentidos, é o que nos preenche ! Porque vou me alimentar de coisas que me fazem mal à alma ? O tempo me ensinou a selecionar melhor o cardápio do meu cotidiano, especialmente as parcerias em todos os lugares.

          Hoje a sensação de realização é plena, apesar dos inúmeros desafios a que sou submetida constantemente, por vezes, me questiono sobre as injustiças que sofro e assisto, a desigualdade que me dói, surge uma vontade enorme de me rebelar, contestar, como fiz na adolescência.... Mas o tempo cura, até a juventude ! Retomo em meus braços, as décadas vividas, respiro fundo, e lembro o quanto já vivi , aprendi e evoluí ! Sempre haverá o céu e o inferno, o bom e o ruim, o mocinho e o bandido, a lealdade e a traição, a fé e a descrença, nós e apenas nós com a nossa consciência e livre arbítrio,  podemos decidir de que lado iremos viver e lutar.

Fátima Pilla Muller  - agosto de 2007

 
Publicação: www.paralerepensar.com.br - 15/08/2007