Estes dias refletindo sobre alguns
problemas, lembrei-me de uma frase que minha avó dizia
com frequência, quando eu me encontrava aborrecida.
Ela falava : "nada que o tempo não cure". Eu era uma
guria, com uma década e alguns anos de vida, não tinha
muita noção de que tempo ela falava, do alto dos seus
quase setenta anos. Mas eu a admirava tanto, aquela
calma inabalável, um caminhar sereno e os olhos verdes
cheios de sabedoria e paz, que era impossível não
acreditar que ali morava uma grande verdade.
Ela também me ensinou a ter fé, a
rezar, especialmente para meu anjo da guarda, sempre
antes de dormir. Este ritual me preenchia de paz e
segurança, eu acreditava que ele zelava meu sono. O
mesmo ensinei aos meus filhos, que como eu,
desenvolveram uma fé sólida, cada um a sua maneira, mas
acima de tudo crêem em algo maior, divino e poderoso.
Conheço tantas pessoas que não tem fé,
que se desesperam sem esperanças, porque não acreditam
em nada, talvez nem em si mesmas. Sinto-me privilegiada
por ter fé e acreditar que junto à ela, o tempo cura
tudo. E, na medida que foi passando, hoje são várias
décadas, minha fé é cada vez mais forte, acredito em
milagres, porque eles já aconteceram comigo, quando o
que eu mais precisava chegava em minhas mãos, exatamente
na hora certa, quando tudo parecia estar perdido, é
aquela chama que nunca se apaga, nem frente a maior
tempestade.
Este é um fenômeno mágico, que
dificilmente se pode explicar, a não ser pela fé pura e
simples, que brota em nosso coração com uma força de
luz, que nos enche de coragem para retomar a vida com
mais garra e dedicação, compaixão e solidariedade. Pode
ser que apenas o tempo nos de esta capacidade de
usufruir da fé intensamente, é preciso viver com
plenitude, amar cada amanhecer como se fosse o último,
tolerar as limitações daqueles que amamos e convivemos,
compartilhar o exercício desta fé, encorajar o ato de
perdoar verdadeiramente. É a evolução de nosso ser que o
tempo nos presenteia generosamente.
Posso testemunhar convictamente que o
tempo curou grande parte das minhas dores e mágoas, e a
fé transformou-as em gratidão pelo aprendizado. E, não
foram poucas as dores e perdas que tive, mas jamais
perdi minha fé em dias melhores e na minha capacidade de
reconstruir meus alicerces. Aprendi também, de tempos em
tempos, a rever minhas companhias, ou aqueles que pensei
serem meus amigos, reavaliar meu jeito de ser, abrir mão
daquilo que me desgasta, estressa, fugir dos mentirosos
e egoístas, pessoas de energia ruim. Exatamente aqueles
queixosos, que sugam vorazmente e nada retribuem.
A cada década, a felicidade interior se
aprimora, é lúcida, transparente, sinto-me acompanhada
por pessoas iluminadas, poucas pessoas, gosto de tudo
que faço, do meu trabalho, cuidar da casa e dos filhos,
receber os amigos, escrever e faço com um prazer
genuíno. Esquivo-me das coisas que me desagradam, não
presto atenção nas páginas policiais e nem assisto
filmes de violência ou terror, porque me deprime.
Acredito demais que aquilo que ingerimos por todos os
sentidos, é o que nos preenche ! Porque vou me alimentar
de coisas que me fazem mal à alma ? O tempo me ensinou a
selecionar melhor o cardápio do meu cotidiano,
especialmente as parcerias em todos os lugares.
Hoje a sensação de realização é plena, apesar dos
inúmeros desafios a que sou submetida constantemente,
por vezes, me questiono sobre as injustiças que sofro e
assisto, a desigualdade que me dói, surge uma vontade
enorme de me rebelar, contestar, como fiz na
adolescência.... Mas o tempo cura, até a juventude !
Retomo em meus braços, as décadas vividas, respiro
fundo, e lembro o quanto já vivi , aprendi e evoluí !
Sempre haverá o céu e o inferno, o bom e o ruim, o
mocinho e o bandido, a lealdade e a traição, a fé e a
descrença, nós e apenas nós com a nossa consciência e
livre arbítrio, podemos decidir de que lado iremos
viver e lutar.
Fátima Pilla
Muller - agosto de 2007
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Publicação:
www.paralerepensar.com.br
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15/08/2007

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