A casa dos grandes pensadores
 
 

EUGEN PFISTER

Vida Marvada ou Vida Engraçada?

Basta parar e pensar um tiquinho para que as contradições humanas sartem à vista desta vida marvada. Veja então vosmecê leitor e leitora, e me diga se ando com a razão ou se ela me falta.

É que aconchegado na rede para apreciar o pôr do sol aqui na chácara em que moro no interior paulista, fico cheio de reminiscências e filosofias. Então me alembro que na aula de catecismo, freira Georgina, com ar de poucos amigos, puxava minha orelha enquanto advertia que eu deveria crer e não ficar colocando minhocas na cabeça. Mas veja só, pouco depois na aula de Ciências, a professora Romilda exaltava uma tar de dúvida metódica e dizia que para acreditar tinha que provar.

Sinceramente, fica tudo um jiló mental: ciência ou crença? Ou crença ou ciência?  Vai saber... Será que paga a pena cismar com essas questões mais enroladas que fumo de corda?

Pois é. Num dia a gente aprende que vontade e motivação é tudo que há de bão na vida; só que os anúncios de emprego dos jornais da capitar deixam claro que para as vagas de caixa de supermercado, calista, ortopedista, engenheiro, equilibrista de circo ou tocador de berrante, se exige tantos e quantos anos de experiência.

Dá o que pensar. Afinar, como posso conquistar um emprego se tenho que ter experiência prévia no trampo que quero conquistar pela primeira vez na vida? Só pode ser coisa de louco!

Outro causo que cutuca meus miolos é que, quando finalmente nos empregamos, escutamos a prosa que a empresa é uma grande família, que nóis devemos ser leal, esforçado, dedicado, apaixonado, doar o sangue, não dar folga para o esqueleto e trabalhar até artas horas da noite.

Mas daí... se um tal mercado engripa, quem sai no espirro, com uma mão na frente e outra por detrás, somos nóis, os filhos e filhas desta pátria ingrata e nada gentil.

Agora, se virar o lado do disco, a coisa entorta de vez. Pois como é possível exigir experiência para um emprego dos mais humirdes, tipo assim, lavar carros, e ao mesmo tempo cobrar do jovem moço ou moça que escolha um curso universitário e uma carreira para o resto da vida quando mal saíram do cueiro?

E se é para cumplicar nóis cumplica, pois moçoilas e moçoilos são empurrados a casar cedo, formar família, prenhar e colocar a cria neste mundão do meu Deus, sem experiência prévia, estudo ou teste vocacional nessas matérias em que mais se erra que acerta.

Agora, pensando e de caso pensado, tarvez a vida não seja marvada, o que ela é mesmo, é engraçada. É assim que um caboclo naturalizado como eu vê o mundo deitado em sua rede num sonolento entardecer na casa de campo em que moro.

Eugen Pfister
Publicação: www.paralerepensar.com.br  31/10/2007