Vida Marvada ou Vida Engraçada?
Basta parar e pensar um tiquinho para que as contradições humanas
sartem à vista desta vida marvada. Veja então vosmecê leitor e
leitora, e me diga se ando com a razão ou se ela me falta.
É que aconchegado na rede para apreciar o pôr do sol aqui na
chácara em que moro no interior paulista, fico cheio de
reminiscências e filosofias. Então me alembro que na aula de
catecismo, freira Georgina, com ar de poucos amigos, puxava minha
orelha enquanto advertia que eu deveria crer e não ficar colocando
minhocas na cabeça. Mas veja só, pouco depois na aula de Ciências,
a professora Romilda exaltava uma tar de dúvida metódica e dizia
que para acreditar tinha que provar.
Sinceramente, fica tudo um jiló mental: ciência ou crença? Ou
crença ou ciência? Vai saber... Será que paga a pena cismar com
essas questões mais enroladas que fumo de corda?
Pois é. Num dia a gente aprende que vontade e motivação é tudo que
há de bão na vida; só que os anúncios de emprego dos jornais da
capitar deixam claro que para as vagas de caixa de supermercado,
calista, ortopedista, engenheiro, equilibrista de circo ou tocador
de berrante, se exige tantos e quantos anos de experiência.
Dá o que pensar. Afinar, como posso conquistar um emprego se tenho
que ter experiência prévia no trampo que quero conquistar pela
primeira vez na vida? Só pode ser coisa de louco!
Outro causo que cutuca meus miolos é que, quando finalmente nos
empregamos, escutamos a prosa que a empresa é uma grande família,
que nóis devemos ser leal, esforçado, dedicado, apaixonado, doar o
sangue, não dar folga para o esqueleto e trabalhar até artas horas
da noite.
Mas daí... se um tal mercado engripa, quem sai no espirro, com uma
mão na frente e outra por detrás, somos nóis, os filhos e filhas
desta pátria ingrata e nada gentil.
Agora, se virar o lado do disco, a coisa entorta de vez. Pois como
é possível exigir experiência para um emprego dos mais humirdes,
tipo assim, lavar carros, e ao mesmo tempo cobrar do jovem moço ou
moça que escolha um curso universitário e uma carreira para o
resto da vida quando mal saíram do cueiro?
E se é para cumplicar nóis cumplica, pois moçoilas e moçoilos são
empurrados a casar cedo, formar família, prenhar e colocar a cria
neste mundão do meu Deus, sem experiência prévia, estudo ou teste
vocacional nessas matérias em que mais se erra que acerta.
Agora, pensando e de caso pensado, tarvez a vida não seja marvada,
o que ela é mesmo, é engraçada. É assim que um caboclo
naturalizado como eu vê o mundo deitado em sua rede num sonolento
entardecer na casa de campo em que moro.
Eugen Pfister
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