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Quando o líder precisa ser
chefe
Se tivesse que escolher livremente,
preferiria mil vezes ser líder a ser chefe. Contudo, a opção é
menos um caso de preferência pessoal que de contingência
situacional, ou seja, às vezes é preciso chefiar, quer essa idéia
agrade ou não.
Gerentes, presidentes, pais de família, eclesiásticos, professores
etc, terão que, vez ou outra, mandar, exigir, pisar no calo dos
liderados e agüentar caras feias sem tugir ou mugir.
A incapacidade de mostrar pulso forte pode ser vista como um sinal
de fraqueza e não como uma virtude democrática. A linguagem
cotidiana consagra termos como - indeciso, bagre ensaboado,
omisso, bundão - para qualificar a tibieza do líder. E, às vezes,
os próprios liderados exigem de seus superiores firmeza e
autoridade.
Gostaria de estar enganado, mas é fácil verificar que a falta de
comando contribui para um sem número de problemas psicológicos,
sociais, econômicos, legais, morais, políticos e de baixa
performance que enfrentamos atualmente.
Assim, para o bem ou para o mal, a autoridade é uma instituição
fundamental à vida social organizada. Ou seja, apesar das tiranias
que flagelaram a humanidade, a hierarquia e a capacidade de
comandar e controlar são requisitos essenciais (não exclusivos) na
luta pela sobrevivência. Quando esta prerrogativa deixa de ser
exercida os efeitos são visíveis e inquietantes.
Professores sem domínio sobre a classe aviltam a qualidade do
sistema escolar. Pais sem capacidade de traçar limites junto aos
filhos contribuem para a proliferação do consumo de drogas,
desinteresse para os estudos, violência juvenil, indolência.
Instituições políticas sem autoridade sobre a conduta de seus
membros descambam para práticas incompatíveis com a moralidade
pública.
O resultado é sempre o mesmo: ineficiência, corrupção, baixa
performance, delinqüência e uma gama de condutas desviantes. Há
efeitos menos dramáticos, mas, mesmo assim, estressantes. É o caso
do gerente moderno doutrinado na escola do politicamente correto
que protela o desfecho desfavorável em relação a um subordinado
incompetente, prejudicando a si, à equipe, à organização e aos
clientes.
O gerente supernany se sente culpado pelas falhas do subordinado:
"onde será que falhei?". Questionar onde o subordinado falhou soa
como pura heresia. Então ele inunda o subordinado de conselhos,
pílulas de motivação e outros truques que um dia aprendeu em
livros, palestras e treinamentos e espera um milagre, ou pior
ainda, transfere o subordinado problemático para outra área num
flagrante ato de terceirização da batata quente.
Só que passa o tempo, o desgaste aumenta até que, finalmente, ele
cede às evidências e faz aquilo que o seu sexto sentido lhe soprou
aos ouvidos desde o início da novela: demite o funcionário
relapso.
Isso sem falar de presidentes, governadores, prefeitos e juízes
confusos, intimidados diante de condutas irregulares de assessores
queridos, ou de atos arbitrários e ilegais praticados por
movimentos ditos sociais.
Sim, o tema é culturalmente indigesto! Sim, ele fere os nossos
anseios democráticos! Porém, negar a realidade não faz com que ela
desapareça. Para ser eficaz o líder deve gerenciar com base em
fatos e dados reais, mesmo quando são desagradáveis.
Líderes indecisos, paternalistas, não movem a roda da história.
Contrariamente, quando contam apenas com a vocação para comandar
eles se tornam chefes tiranos que reinam pela intimidação, pela
ameaça e pela truculência, e acabam rejeitados por aqueles a quem
pisotearam.
Flexibilidade e capacidade de perceber qual o estilo gerencial
adequado à situação é o segredo da liderança eficaz. O paizão,
cúmplice do filho, deve conviver com o pai pedagogo que ensina,
com o pai duro que decide, com o pai mentor que orienta à
distância e com o pai amigo que não censura nem educa; apenas
compartilha dos bons e maus momentos da vida.
O mesmo sucede com o gerente eficaz. Em certas circunstâncias ele
é o coach que orienta o grupo. Em outras, ele serve à equipe
usando a sua posição e prestígio para obter recursos necessários
ao bom desempenho das tarefas.
Quando tudo anda às mil maravilhas ele pode, inclusive, se dar ao
luxo de ser ausente (mas não desinformado), enquanto a equipe
exercita a auto-gestão. Quando o trem da vida descarrilha ele deve
disciplinar, punir, demitir, cortar benefícios e tomar decisões
que contrariam desejos, opiniões e interesses da maioria dos
liderados ou até os próprios.
O problema é que as teorias gerenciais consagradas falam demais
acerca do bônus, do lado agradável da liderança, e são omissas
quanto ao ônus, o lado das situações e decisões desagradáveis de
quem comanda. Enfim, há tempo para semear, para colher, para amar,
para guerrear.
Eugen Pfister, é consultor de empresa, educador e
especialista em performance humana. E-mail:
epfister@terra.com.br
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