- É creu ou é
crau?
-
-
Eugen Pfister
-
-
O medo de não ser lembrado,
convidado para aquela reunião, aquela festa, aquela
noitada, não ser entrevistado por um programa de tv ou de
pesquisa eleitoral é marca registrada do homem moderno.
-
A “opiniologia”
é o ópio dos nossos dias.
-
Antigamente, o que nos
tornava humanos era o tempo que empregávamos para refletir
das coisas do céu e da terra. Hoje, cruz credo, pagamos
psicólogos, consultores, estilistas, personal trainers e
outras espécimes mais ligadas às ciências ocultas que às
ciências exatas e humanas para que pensem e decidam por
nós.
-
Os mais radicais delegam à
televisão a educação dos filhos e a formação das próprias
opiniões e temas de interesse.
-
Quem não assiste televisão
torna-se um estranho em sua própria pátria. Nunca sabe,
por exemplo, se o créu ou a egüinha pocotó é a dança da
vez. Um sem assunto, sem fofocas, sem piadas é um pária
que sequer conta com um MSTV (movimento social dos sem
televisão).
-
Outro dia queriam saber se
eu achava a mulher jaca ou mulher acerola mais gostosa.
Assim que perceberam que eu não estava por dentro da
fruticultura feminina fui taxado de alienado. Lembrei do
atormentado Cícero “O tempora! O mores!” (Ó tempos, ó
costumes!). E pensar que na época da faculdade alienado
era quem não tivesse lido os três tomos do Capital de Marx
ou os dois tomos de Economia e Sociedade de Weber.
-
No desandar da carruagem, se
Shakespeare fosse vivo, a famosa frase atribuída a Ricardo
III que perdeu o cavalo junto com a batalha de Bosworth
Field em 1485 - “um cavalo, um cavalo, meu reino por um
cavalo” – seria atualizada para: “um controle, um
controle, meu reino por um controle remoto de tv”.
-
Se a Declaração da
Independência norte-americana tivesse ocorrido hoje e não
em 1776, no preâmbulo onde se lê (...) “Consideramos estas
verdades evidentes por si mesmas, que todos os homens
foram criados iguais, foram dotados pelo Criador de certos
direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a
liberdade e a busca da felicidade”, ter-se-ia
acrescentado: direito à ... busca de felicidade e do seu
programa favorito na televisão”.
-
Os gregos antigos
consultavam as Pitonisas em Delfos ou Sócrates que
filosofava a céu aberto em praça pública. Hoje todos estão
sequiosos em saber o que pensa aquela cantora que tem mais
nádegas que voz sobre a Guerra na Tchetchênia e se a fusão
do átomo a frio ou a quente é mais eficiente?
-
- O que você acha sobre o buraco na camada de ozônio?
-
- Com certeza eu sou contra, seu moço.
- Todos têm o direito de opinar
sobre o que quer que seja, desde que não tenha estudado o
assunto e as idéias ventiladas não tenham pé nem cabeça,
relevância ou transcendência. Essa é a lógica das
pesquisas de opinião sobre célula tronco, soja transgênica,
buraco negro, antimatéria ou o ET de Varginha.
- O parecer de um Phd em
biologia, química ou astronomia vale tanto quanto o da
vedete do teatro de rebolado, do dono do boteco da esquina
ou do graduado em letras ou educação física, que podem ser
entendidos de outros saberes e artes, mas que nestas estão
mais por fora que um guaxinim numa sauna turca.
- Está na hora de inverter a
letra daquele samba “escreveu não leu, o pau comeu” para
“escreveu e leu, azar seu”.
- Abraços, fui...
-
- Eugen Pfister Jr, consultor, educador, especialista em
desempenho humano e gerencial.
- E-mail
epfister@terra.com.br