De Onde Vêm os Problemas?
Por Eugen Pfister
Bom, sem meias palavras ou luvas de pelica, a questão é que a
IGNORÂNCIA é o nosso estado natural e dela provém a maior parte
dos problemas pessoais e sociais. Em contrapartida, o
conhecimento é pré-requisito para superar a ignorância, resolver
problemas reais e até evitar problemas potenciais.
O budismo, por exemplo, distingue dois tipos de ignorância: a
inata e a cultural, ou seja, a ignorância adquirida. A primeira
é inevitável. Não tem jeito: desembarcamos no mundo sem lenço,
documento e conhecimento.
A boa notícia é que estamos equipados, motivados e prontos para
aprender. A má notícia é que, às vezes, zarpamos desta vida em
dívida com as oportunidades que desprezamos.
O fato complicador é que nem tudo que passa pela rubrica do
ensino nos torna mais competentes, inteligentes ou sábios.
Preconceitos, meias-verdades, tradições, conhecimentos
obsoletos, recusa em aceitar os fatos, apego a usos e costumes
ultrapassados inculcados na infância atrapalham a nossa jornada
rumo ao saber.
Esse repertório arcaico de pseudoconhecimento é plantado nas
nossas mentes com a mesma competência pedagógica usada para
aprendermos a falar, ler, escrever e resolver problemas
trigonométricos.
Sim! Há um TREINAMENTO PARA A IGNORÂNCIA respaldado pela
família, pela escola e pela sociedade, mesmo quando ministrado
com carinho e boas intenções. Sim, a história das idéias e da
cultura tem seus mártires, seus livros negros e suas infâmias.
A ignorância é tão democrática que mesmo alunos brilhantes,
recém formados nas melhores faculdades, descobrem, cedo, que na
escola faltaram lições importantes como a de encontrar o ponto
de equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional; lidar
com a volatilidade do emprego e da carreira em tempos de
globalização; enfrentar colegas que fazem de tudo para puxar o
tapete; e outras lições acerca da vida como ela é e não como
deveria ser.
Aliás, um funcionário recém admitido no primeiro dia de trabalho
sequer sabe onde ficam o banheiro, o refeitório e outros anexos,
salas e pessoas. Da mesma forma, ignoram se podem contar certas
piadas, falar do Corinthians, opinar livremente nas reuniões,
sustentar pontos de vista opostos aos do chefe e assim por
diante.
Ah, é bom não esquecer que além da ignorância nata e adquirida
existe ainda a ignorância situacional que é expressa
pela dificuldade de entender circunstâncias e eventos
imprevistos, e assim meter os pés pelas mãos.
Conclusão: qualquer tipo de ignorância é um fardo duro de
carregar. E o problema, como vimos, é que ela está na origem dos
grandes e pequenos males que infelicitam indivíduos,
organizações e nações.
O conhecimento, por sua vez, não nos torna necessariamente
felizes ou evita futuros problemas. O que ele nos oferece são os
instrumentos para entender por que sofremos, por que erramos,
por que não evoluímos e como devemos agir para sair do atoleiro.
O primeiro passo para superar a ignorância (nata ou adquirida) é
admitir que nada ou pouco sabemos acerca de tal ou qual assunto.
Esta foi a atitude de Sócrates quando soube que o Oráculo de
Delphos proclamou que não havia em Atenas ninguém mais sábio que
ele. Ele admitiu que isso bem podia ser verdade já que era o
único ateniense a admitir a sua ignorância.
Vejam que curioso. Sócrates nos ensina que o primeiro passo na
cura da ignorância é uma atitude e não um conjunto de novos ou
velhos conhecimentos.
Basta ser menos crédulo e um pouco mais cético ao pensar. Basta
considerar as opiniões, teorias e saberes como hipóteses a serem
testadas, validades e revistas. Basta reconhecer que a vida e a
realidade são feitas tanto de regras como de exceções.
Aquele que imagina que tudo sabe costuma ser arrogante,
autocrático, pouco propenso ao diálogo ou a pôr em xeque suas
opiniões. A sisudez e a inflexibilidade vêm acompanhadas da
falta de apetite pelo aprendizado contínuo na escola da vida.
Por último, é recomendável que não nos levemos demasiadamente a
sério. Aprender a rir de nós mesmos e das nossas falhas, é um
dos caminhos para a sabedoria.
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Eugen Pfister Jr, consultor, educador, especialista em
desempenho humano e gerencial.
- E-mail
epfister@terra.com.br
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