A casa dos grandes pensadores
 

ALBERTINO FERNANDES NETO

 
 

 

 

 

Vai colega?

O Muniz era daquele tipo divertido e bonachão, tinha a fala meio tibitate por conta da língua presa e falava como se estivesse lambendo os lábios.
Adorava tomar uma pingazinha antes de chegar em casa depois de mais um dia de trabalho.

E isso acontecia invariavelmente todos os dias. Dava uma passadinha na bodega de Seo Antonio, ou birosca como dizem alguns ou boteco como dizem outros, para tomar sua cachacinha pura. Só bebia pinga pura, sem nenhuma mistura para não perder o sabor da cana e também esquentar melhor o couro antes do banho frio.

Chegando à dita bodega, como sempre fazia, saudou a garotada que ficava sentada em um banco de madeira, em frente a casa, aguardando o sol esfriar para ir pegar o costumeiro baba de todas as tardes.

- Boa tarde rapaziada, tudo certinho com vocês?

Ao que todos respondiam com ares risonhos e em uníssono, já esperando acontecer alguma coisa hilária por parte do divertido Muniz.

- Beleza Muniz.

Adentrando à dita bodega e já no balcão, Muniz falou para o comerciante.

- Bota uma pura aí, Seo Antonio.

E olhando para o lado, notou que tinha um companheiro de pinga escorado no balcão como se estivesse com receio do mesmo cair, e completou a frase:

– Vai colega?

O colega já com umas duas na cachola e meio desequilibrado, não perdeu tempo.

– Vou sim!
E completou:
– A minha, com limão e mel!

Muniz achou aquilo um verdadeiro desaforo, ficou matutando e falou para o colega escorado, que continuava lá segurando o balcão.

– Olha colega, a pura eu pago, o limão e mel você paga!

Virando-se para a rapaziada, que a tudo assistia, acrescentou.

– E eu lá tenho cara de otário? Eu tomo pura e ele quer tomar com limão e mel! Prá cima de mim?

Albertino Fernandes – Pensa-me

 www.paralerepensar.com.br - 28/10/2010