Agonia
     

A casa dos grandes pensadores
 

ALBERTINO FERNANDES NETO

 

 

 

 

O Sem Orelha
Era uma tarde de sábado, daquelas de verão, que nos deixa sonolentos, com aquela preguiçinha e uma vontade ainda maior de não fazer nada. Só mesmo uma rede para balançar o esqueleto e uma gostosa sombra para espantar o calor.
 
No jardim de nossa casa, à sombra de um frondoso pé de carambola, estava eu matutando os acontecimentos da época e lendo mais uma vez meu precioso exemplar do livro “Fernão Capelo Gaivota”,  de Richard Bach, quando ouvi um barulho de gente gritando por socorro na rua próxima à nossa casa.
 
- Acudam aqui “pelamordedeus”, Muniz está brigando com o Vavá e os dois vão se matar. Acudam por favor, acudam.
 
Larguei o livro em cima da rede de balanço onde estava e corri para a rua, para ver o que estava acontecendo.
 
Do lado de fora de nossa casa estavam realmente engalfinhados os dois maiores pinguços do pedaço, Muniz, que não perde uma, e oVavá, que não perde nenhuma. Tão grudadinhos estavam que mais pareciam dois amantes em pleno ato do amor. Muniz,  com o braço esquerdo laçado ao pescoço do Vavá e a outra mão escondida pelo seu próprio corpo segurava alguma coisa que não sabíamos exatamente do que se tratava, até ouvir os gritos do Vavá. 
 
- Solta meu negócio seu fio duma égua,  solta meu negócio.
 
Foi aí que notei que a mão direita do Muniz estava agarrada ao sexo ou nos “quimba” de Vavá, como falávamos na época,  que aos berros continuava reclamando.
 
- Solta meu negócio seu desgraçado, solta. Se não soltar você vai ver só.
 
Só no ato seguinte da disputa ficamos sabendo do que se tratava o “você vai ver só” dito por Vavá.
 
Como o Muniz não largava de jeito nenhum as coisas do oponente,  Vavá virou-se para o lado, como quem ia tascar um beijo, em  Muniz,  e o que vimos e ouvimos foi um gesticular e um pavoroso grito do Muniz, após soltar as “coisas” de Vavá.
 
- Minha orelha, esse miserável arrancou minha orelha,  socorro, vou morrer,  mamãe  me acode mamãe,  me acode!
 
Dito e feito, após muito esforço da vizinhança para separar os dois, notamos que Muniz estava sem uma banda da orelha direita e o sangue jorrava para todos os lados, para maior desespero do ferido que, numa desenfreada e desesperada carreira evadiu-se para sua casa.
 
A essa altura chegou uma senhora, que ficamos sabendo ser a mãe do Muniz, gritando que nem louca para todo mundo, que não ficassem andando para lá e para cá, que ela estava procurando o pedaço da orelha do seu filho querido e que ia colar o pedaço de qualquer jeito, nem que fosse com cola de sapateiro.
 
Só que nada foi encontrado e todos saíram dizendo que o Vavá estava era esfomeado e tinha engolido o pedaço da orelha de Muniz como tira-gosto das pingas que havia engolido.
 
Só que nada foi encontrado e todos saíram dizendo que o Vavá estava era esfomeado e tinha engolido o pedaço da orelha de Muniz como tira-gosto das pingas que havia ingerido.
Albertino Fernandes – Pensa-me

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