Agonia
     

A casa dos grandes pensadores
 

ALBERTINO FERNANDES NETO

 

 

 

 

Elegância

Lá no boteco do KK, além do China, trabalha outro garçon que nosso querido amigo apelidou de Elegância. China o chama assim pelo fato de o mesmo, segundo ele, ser todo tranquilo e arrumadinho. O Elegãncia tem 65 anos, e China se diverte com a figura dele dizendo que mais se parece com um rapaz de 40 anos - pela elegância e o jeitão nobre de atender aos fregueses, do que propriamente um senhor idoso. O certo é que China não deixa o colega em paz.

Certa
vez me contou que o Elegância tem um parente que é muito pão-duro, não gosta de pagar conta ou devolver nada a ninguém que ouse lhe emprestar alguma coisa ou algum dinheiro. E ainda, que o dito cujo era louco por ovo cozido e umas branquinhas, no capricho.

Um belo dia, o tal parente do Elegância, adentrando um boteco do bairro, viu em cima do balcão uma cesta cheinha de ovos cozidos, daqueles coloridos, de cores diversas, que mais pareciam um arco-íris de ovos. E pensando, o Elegância viu ovo azul da cor do céu, ovo rosa como as flores de sua amada vizinha, ovo amarelo, que nem canário belga, e ovo vermelho como o sangue de sua galinha caipira, que virara almoço na casa de sua avó. Todos bem pintados com anilina.

O fominha por ovo falou para a dona do estabelecimento:

- Dona senhora, quanto é o ovo cozido?

É bom notar que ele não tinha sequer um tostão furado no bolso. Estava mais liso que bumbum de nenê. A dona da birosca, já sabendo de sua fama de pão- duro, respondeu-lhe, meio desconfiada:

- É um real, cada!

O mão-de-vaca pediu-lhe um amarelinho.

Após receber o ovo, fitou-o com deleite e prazer, antecipando o gozo da degustação. Deu uma olhada em todo o interior da birosca e falou para a senhora que estava atrás do balcão:

- A senhora também vende bebidas, não é?

- Sim, vendo.

- Então, bota uma branquinha aí e troca esse ovo pela pinga!

A senhora bodegueira pegou o ovo, colocou-o de volta no cesto e botou uma talagada de pinga num copo para o pão-duro, que de uma só golada sorveu todo o líquido dando um estalo de língua, e em seguida se despediu.

A dona do boteco gritou:

- Ô, moço, o senhor não pagou a bebida!

Ele respondeu:

- Como pagar a bebida, dona senhora, se eu a troquei pelo ovo?

- Mas, o senhor não pagou o ovo!

- Mas eu lhe devolvi o ovo. Eu não comi ovo nenhum. – e apontando para a cesta - olha ele aí na vasilha, o amarelinho!

A senhora, boquiaberta, não pôde realmente dizer nada, e o pão-duro ganhou mais uma, e todo garboso foi contar o feito para o Elegância.

Albertino Fernandes – Pensa-me

 www.paralerepensar.com.br