
LÍNGUA NACIONAL
"O meu país não é minha língua, mas levá-la-ei para
aquele que encontrar". (Maria Gabriela Liansol, 1985).
Numa dessas noites quentes da vida, havia começado a
escrever, apenas para chamar o sono. O idiota não vinha!
Eu dizia: deixa, não me aporrinha, quero cochilar não
desejo encarar, o novo dia chegar. O clarão faria a
vista doer, a inquietação continuar não conseguiria
colocar no papel o quê desejava explanar. Minha memória
falhou, vou procurar o doutor e desabafar total. De
repente me lembrei: estou dando uma de intelectual,
tenho que apor nas linhas o quê? A história da língua
nacional. Eis que senão quando, senti algo estranho
querendo adentrar no meu corpo e num lugar para lá de
esquisito. Assustei-me, era uma barata e a coitada
matei. Inerte e sem vida estendida ao chão, o pobre
inseto ficou a mercê de um espião. Meu cachorro de
estimação, que sem nenhuma razão estraçalhou a coitada
numa só dentada. "Estava ali desfrutando a suavidade
noturna, o orvalho da noite, o prazer de me conhecer o
que eu estava a escrever, com aspecto de animal
parecendo um irracional não medi proporções: agitado,
nervoso, irritado, veio à mente e de repente eliminei o
animal, que por curiosidade só queria saber minha
opinião sobre a língua nacional".
Era um inseto aculturado desses que têm o cuidado de não
perturbar e aparecer, mas por um destino perdeu o
caminho e foi comigo ter. "Na minha ignorância deixei a
protuberância destruir uma vida, mesmo de um inseto que
irrequieto queria saber, o que eu estava a escrever".
Num ato impensado já era passado. Cansado, aniquilado,
procurei esquecer, foi neste momento de vil sofrimento
que consegui adormecer. Não vi passar as horas, só sei
que a demora deixou-me descansado, um pouco estressado,
mas com uma incumbência a fazer. Papel prá que te quero?
Para falar da língua nacional! É um idioma neolatino
derivado do latim. Sua história começa antes da Era
Cristã, quando os romanos dominavam a península Ibérica,
hoje Portugal e Espanha, e impuseram seus padrões de
vida e sua língua. Hoje tristonho, fico a meditar! Meu
Deus uma língua tão linda, vive na berlinda sofrendo
pelos acintes, porque a cultura insensata de nosso povo,
não a quer abrilhantar. As várias etnias que lá existiam
acabaram por se misturar ao latim falado pelos soldados
romanos: o linguajar do povo, que não possuía forma
escrita, um latim vulgar, ao contrário do latim erudito,
mais rígido. Por não estar preso à forma escrita, o
latim vulgar era mais variado e por isto não foi difícil
surgir os dialetos, fruto das diferentes combinações em
cada região. Até na língua o brasileiro sofre as
conseqüências da natureza, sofremos influências de um
latim vulgar, o erudito ficou para os mais bonitos e
benditos, mas não me cabe julgar. Além da dominação pelo
Império Romano, a Península Ibérica também sofreu
invasões de povos germânicos (vândalos, suevos e
visigodos), no século V da Era Cristã. De engodo já
basta, estamos cansados, maltratados e para tudo que
termina em godo não estou nem aí.
Herdamos alguns vocábulos, sendo a maioria ligada à área
militar, tais como: guerra, marechal e general. As
invasões dos árabes no século VIII também contribuíram
para incorporação de novas palavras. Você sabia que
geralmente as palavras começadas em "al" têm origem
árabe? São exemplos: alface, alfinete, álgebra,
alfândega. Das que não começam em "al": garrafa, xarope
e quintal. Brasileiro quer um pezinho para começar a
andar, assimilou direitinho - a linguagem arábica vai se
enfiando no álcool, alfinetando sem inimigos e amigos
também. De álgebra têm horror, de alface nem pensar, de
alfândega nem perto passar. Associa o álcool à cachaça,
pensa logo na garrafa vai ao quintal bebericar e começa
a xaropar. Na história da língua nacional transborda
verdadeiro carnaval de palavras encantadoras, mesmo do
latim vulgar não temos o que reclamar. Mas se fosse do
erudito ficaria mais bonito, talvez horripilante no
sotaque do nordestino, no chiar do carioca, do paraense,
do amazonense, parte de paroaras e de marajoaras, dos
amanauaras a língua enrolada do paulistano a dizer: "Acoida
meninão fecha o poitão aproveita e coita as unhas
imundão".
E vêm as confirmações do carioca: "é mermo" camarada.
Alegro-me quando vejo um mineiro viajar. Na sua pressa
tradicional diz para a família: "prepara os trens
queridos, que a coisa vai passar". Os trens são os
pertences e a coisa o trem. Não posso me atrasar sô, mas
antes de sair diga-me três palavras começadas com a
letra "U", só isso: Berlândia, Beraba, Batuba, estou
indo sô, se não perco o horário da coisa. É engraçado
minha gente - de muitão as variedades de costumes e
sotaques que o brasileiro tem. Diamantizam de uma forma
geral a língua nacional. Ou não? As influências
germânicas e árabes não foram tão intensas quanto à dos
romanos e por isto, as raízes latinas foram as que
continuaram sustentando a cultura da península. A região
que hoje ocupa Portugal se destacou do restante da
península no ano de 1143, quando foi declarada a
independência portuguesa, com o idioma galego-português.
No sul, predomina o português, e, no norte o galego.
Esta parte foi anexada pelo povo castelhano alguns anos
depois e em 1290 o idioma oficial na Nação Portuguesa.
"Galego no Brasil é conhecido como loiro sarará, igual a
cachorro de madame enxerga mal de dia, uma tristeza a
noite uma beleza". Português é tão bonzinho, além de
tornarem seu país independente, ainda fizeram a
independência da gente. Será por isso que fazem tantas
chacotas com os patrícios, dizendo que Português só sabe
fazer bem o pão. Por isso nos deu um pão grandioso de
presente, aliás, uma mina, a Independência divina. "O
que desviam de dinheiro e mandam para o exterior é
brincadeira e ainda afirmam que é lavagem. Sujo ou não,
temos que passar por ela com direito a sabonete, xampu e
condicionador. Assim fica o dinheiro sujo depois de
lavado. Com estas atitudes por falta de estudo o povo
fica rude". A língua oficial do nosso país é a Língua
Portuguesa imposta pelos colonizadores quando chegaram à
costa brasileira. Aqui já se falavam vários dialetos
indígenas, porém a maioria foi extinta para dar lugar ao
idioma português. Se você leu com atenção sobre os
nativos brasileiros, vai lembrar que, dos 1300 dialetos
falados pelas diversas tribos indígenas em 1500 só
persistem cerca de 180. "Não vá me dizer que não sabia,
porque não tinha nascido ainda". Durma-se com um barulho
deste. Foi indagado a um determinado aluno se ele
conhecia bem o português, ele afirmou que sim. Toda
classe bateu palmas. "Ele na maior cara de pau disse: se
for meu vizinho da esquerda - conheço-o muito bem".
Idiota, replicou uma voz bem baixinha.
Mesmo adotando o idioma de seu colonizador o Brasil
possui modo de escrever e de falar que foram surgindo e
imantando-se ao nosso povo com o passar do tempo. A
Língua Portuguesa aqui é bem diferente da que
encontramos em Portugal, além das variações que
encontramos de região para região dentro do nosso país.
Isso tudo porque um idioma não é algo estático parado no
tempo. Se fosse, ainda estaríamos falando como Portugal
no século XVI como tempo "d'antes". Reparou como o poema
de Fernando Pessoa mostra esta transformação?
Sinceramente, de uma hora para outra fiquei cego, mudo e
mouco. "Pensei cá com meus botões que lá em Portugal só
existiam Manoel e Joaquim e Joaquim e Manoel. É verdade.
Também existe uma quantidade enorme de Marias. No Brasil
já não suporto mais falar em "Zé". É de baixo é de riba,
mas como têm Zé lá na Paraíba". O importante é que nossa
língua muda de acordo com a época e com os costumes.
Lembro-me do jargão popular: "O uso do cachimbo é que
faz a boca ficar torta", mesmo em curtos espaços de
tempo, através da publicidade surgem certos slogans
(Parabéns, você falou difícil prá caramba), que
modificaram e acrescentaram novas palavras e expressões.
O velho neologismo. Até o pobre do ministro que tomou
doril, ninguém sabe ninguém viu Rogério Matos (nosso
ex-professor) me enganei: Rogério Magri, da época do
governo Collor (desgraçado levou meu dinheiro e ainda
hoje estou com questão na justiça) ninguém usava o termo
imexível (por saberem que tal palavra não existia ou por
que não gostavam de inovar?), só para encardir o canelal
vou usar os meus: (diamantizar, aurear, involuído) e
quem quiser me criticar estou todas as noites na FGF
(Faculdade Integrada da Grande Fortaleza), menos nos
sábados e domingos. Muita coisa mudou e acredite. Cada
um de nós contribuiu para que assim fosse e se assim não
fosse, graça não teria. Gostaram. Descobri uma coisa!
Digo ou não digo? Não vou dizer, vou afirmar: com os
olhos abugalhados ou abobalhados viram como temos várias
línguas em torno da língua Portuguesa? Têm o português
de Portugal, o português do Brasil e suas inúmeras
variações regionais. E ainda o português das outras
colônias (Não é perfume, nem água de cheiro minha gente)
não é tão complicado, porque, no final das contas, todas
estão sujeitas às regras e formalidades do idioma
representadas pela Gramática da Língua Portuguesa. "Deus
meu pensei que só mulher tinha regras, no final as
contas novas - agente deixa envelhecer e às velhas
ninguém paga" - caí no conto do bobo, pois quem está me
devendo não vai querer pagar respaldado justamente nesta
assertiva. Para concluir queria dizer que a crônica é a
visão do mundo que a pessoa a tem acrescida com um pouco
de charme, de graça, para que o monótono não apareça. A
sua forma de ver e questionar o mundo ao seu redor é
importantíssimo. Além de observar mais atentamente a
pessoas e situações que fazem parte do seu dia-a-dia, o
exercício de sua redação ao tentar construir textos
claros, tornam as pessoas mais criativas. E tem muita
lógica em nossa afirmação. Do que foi exposto aqui
considero a língua portuguesa riquíssima e se faz
necessário que todos sem exceção, estejamos acompanhados
pelo pai dos sábios: O dicionário. Que os menos avisados
chamam ou apelidam como o "pai dos burros". Estamos
prestes a comemorar o dia Língua Nacional e dedico a
nossa um poema de Fernando Pessoa de 1930: "A nossa
magna língua portugueza". E nobres sons é um thesouro.
Seccou o poente, murcha a luz represa. Já o horizonte
não é oiro: é ouro. Negrou? Mas das altas sylabas os
mastros. Contra os céus vistos nossa voz affoite.
"O claustro negro céu alva azul de astros, Já é noute: é
noite".
Antonio
Paiva Rodrigues - Jornalista - Membro da Alomerce - Da
ACI (Associação Cearense de imprensa) e a Aouvir
(Associação dos Ouvintes de Rádio do Ceará)