Quebra-cabeças
Por Alessandra Leles Rocha
Quanto mais o tempo passa melhor consigo perceber as sutilezas
do mais belo quebra-cabeça que podemos montar, ou seja, a
vida.
Gostando ou não desse artefato lúdico,
a vida é sim um constante e complexo mosaico de peças que se
unem ou não numa eterna busca pelo quadro final perfeito e
belo.
Pedaços de diferentes tamanhos que
cabem em segundos, horas, dias, meses, anos ou décadas e nos
trazem pistas para decifrar a imagem de um pequeno quadrante
da grande obra.
Há momentos em que de fato quebramos
nossas cabeças no exercício dessa arte a qual fomos convidados
a participar meio a revelia de nossa concordância, incertos
sobre nossos parceiros de jogo e nossas vontades momentâneas.
Mas, o que aparentemente soa tão monótono e previsível esconde
em si uma mágica dinâmica que nos envolve e nos ensina os
limiares da dualidade, extremos opostos fascinantes e
desafiadores para transformar o âmago de nossa essência.
Participar da vida é apresentar-se
lagarta e evoluir ao propósito de chegar à liberdade das
borboletas; passo a passo, pedaço a pedaço, moldando e
remodelando a argila vital, ganhando e perdendo asas. Para
muitos essa experiência fantástica é enlouquecedora e absurda.
Imagina receber um jogo sem regras, sem tabuleiro, só para
instigá-lo a usar a criatividade, o bom-senso, o equilíbrio, o
olhar mais despojado e alegre? É! Nem todo ser humano lida bem
com a arte! Essa é com certeza a mais plena experiência
artística que desfrutamos. Por outro lado há os que agradecem
e recebem como o maior de todos os presentes essa oportunidade
singular. Não se preocupam com acertos, com eventuais
contratempos, a meta é construir, agregar, desabrochar imagens
e idéias, sentir pulsar o máximo de vezes a energia de uma tal
felicidade. Seu quebra-cabeça é sempre muito colorido, repleto
de risos e sorrisos (às vezes, algumas lágrimas para quebrar a
monotonia), dias de muitas peças ou não; mas, dispostos a
curtir até o final esse convite inusitado.
Como nos quebra-cabeças convencionais é
certo que ao final teremos uma resposta, uma figura talvez,
que defina nossa meteórica ou meditante estada sobre a Terra.
O importante é sabermos que de tudo restaram energias e
sabedorias que nos acompanharão em novos processos de vida e
servirão como alavancas de ampliação desse infinito
quebra-cabeça que cada um de nós é peça fundamental.
Alessandra
Leles Rocha