Da vida ao encantamento
Por Alessandra Leles Rocha
Não dar o peixe, mas ensinar a pescar.
Certamente essa frase define de forma simplória a
grandiosidade do trabalho de D. Ruth Cardoso1.
A filha ilustre de Araraquara (SP) e do Brasil despediu-se de
nós, deixou neste inverno uma triste melancolia pairando no
ar.
Talvez a grande maioria da população
não se deu conta da dimensão dessa perda; mas, ficamos sim,
mais órfãos. Brasileiro costuma ter memória curta e percepção
limitada quanto à importância de certos vultos para o
progresso da nação! E D. Ruth não se valeu dos holofotes, dos
títulos, das convenções para firmar sua existência. Como boa
mulher brasileira arregaçou as mangas e desdobrou-se em
quantas fossem necessárias ao longo da vida. Mulher, mãe,
professora, pesquisadora, cientista, militante em favor de uma
sociedade mais justa e solidária. Quase oito décadas de
história, acumulando experiências, olhares e impressões que
pudessem ser traduzidas em transformações positivas ao país.
Simples, discreta e laboriosa; essas
eram as características marcantes dela. Parceira fiel e
devotada do marido, o ex-presidente da República, Fernando
Henrique Cardoso por 56 anos, jamais viveu à sua sombra ou
perdeu sua própria identidade. Foi a companheira perfeita
durante os dois mandatos dele no Palácio do Planalto,
consciente de suas atribuições dentro e fora do Brasil.
O silêncio de suas palavras e a
ausência de suas ações nos condenará a reflexão. A realidade
da dinâmica social brasileira, os impactos das mudanças
mundiais, tantos problemas a se proliferar em meio ao
contingente populacional e estaremos sem uma voz contundente a
nos guiar. Somos ainda pescadores sem muita prática, agora
lançados ao mar com o que ficou das lições.
Que a paz do dever e da vida bem
cumpridos faça de D. Ruth uma intercessora dessa terra em
outras esferas. Que sejamos inspirados nos momentos difíceis
por sua orientação. Que não percamos de vista seus
ensinamentos e abracemos a causa de fazer desse país uma nação
comprometida e responsável por seu amanhã. Afinal, como disse
João Guimarães Rosa2,
“as pessoas não morrem, elas ficam encantadas”.
1
Ruth
Correia Leite Cardoso
(Araraquara,
19
de setembro de
1930 —
São
Paulo,
24
de junho de
2008), nascida Ruth Vilaça Correia Leite, foi
uma
antropóloga
brasileira e professora da
Universidade de São Paulo. Desde
1953, Ruth era casada com
Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente do
Brasil, com quem teve três filhos. Criou e presidiu ,
durante o mandato de seu marido, o programa
Comunidade Solidária
[2],
de combate à
exclusão social e à
pobreza, dentro de uma perspectiva
emancipatória. Em
2000, criou a
Comunitas,
organização não governamental, visando dar
continuidade às atividades do Comunidade Solidária. Morreu
no dia
24
de junho de
2008
[3],
em sua residência, em decorrência de problemas cardíacos,
um dia após realizar
cateterismo cardíaco e receber alta hospitalar.
(http://pt.wikipedia.org/wiki/Ruth_Cardoso)
2João
Guimarães Rosa
(Cordisburgo,
27
de junho de
1908 —
Rio
de Janeiro,
19
de novembro de
1967) foi um dos mais importantes
escritores
brasileiros de todos os tempos. Foi também
médico e
diplomata. Os contos e romances escritos por
João Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado
sertão brasileiro. A sua obra destaca-se
sobretudo pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela
influência de falares populares e regionais. Tudo isso,
unindo à sua erudição, permitiu a criação de inúmeros
vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares,
invenções e intervenções semânticas e sintáticas. (http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Guimar%C3%A3es_Rosa)
Alessandra
Leles Rocha