A casa dos grandes pensadores
 
 

ALESSANDRA LELES ROCHA

 

 

Contra o relógio

 Por Alessandra Leles Rocha

Que rotação é essa em que o tempo parece escorrer de nossas mãos?! As vinte e quatro horas diárias têm sido de fato insuficientes para cumprir as obrigações e quiçá desfrutar algum regalo por tanto esforço.

Por mais que se tente, esforce, procure otimizar os segundos, a escravização da modernidade nos arremessa contra a impiedosa tirania do relógio. E a tecnologia chicoteia nosso corpo e nossa mente para extrair um sumo a mais da máquina vital, até cairmos fadigados ao limite das forças.

Que maratona desleal! Cansados ao final, o que conseguimos usufruir desse sacrifício? De crianças a idosos a queixa de stress, cansaço, fadiga, depressão é unânime. Em maior ou em menor escala padecemos todos desse grave inconveniente. Mesmo quando dormimos, o cérebro teima em trabalhar acelerado e descompassado, fazendo com que o sono seja incapaz de restaurar nosso equilíbrio e bem-estar. Por isso, acabamos por nos sentir inaptos ao cumprimento das tarefas cotidianas e mergulhados na terrível impressão de incompetência.

É! Tempos modernos que sucumbiram a calma e perturbaram a alma de milhões de seres humanos. E quanto mais se corre, mais problemas passam a compor a vida, como se um grande túnel nos aspirasse para o seu interior. A ciência e a medicina até nos provam que apesar dos pesares temos vivido mais anos; entretanto, a qualidade desse mais fica bem a desejar! Nossos corpos não foram preparados para exaustão, para tantas oscilações de adrenalina e hormônios.

E dizer que no campo o tempo permanece intocado é pura brincadeira! A rotação por lá também está acelerada, graças ao avanço tecnológico que estendeu seus braços aos mais distantes rincões. Quem vive no campo cumpre a meta de seu stress diário.

Quando fechamos os olhos por alguns segundos para pensar em toda essa situação, vemos como se tivéssemos sido lançados dentro de um grande liquidificador e ao sairmos dele, por mais que quiséssemos parar nossos cérebros não conseguiam. Sim! Fomos presos na teia de nossas ambições de poder. Fazer, fazer, produzir, produzir, mais, mais... até o ponto de esquecermos o bem-senso, o equilíbrio, o limite e, o tempo tornar-se insuficiente aos nossos desatinos. Faltou-nos modéstia para admitir que as rédeas do tempo não nos pertencem e por esta razão jamais o ampliaremos ao nosso bel prazer.

Alessandra Leles Rocha

Publicação: www.paralerepensar.com.br - 22/09/2008