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A Primavera no deserto
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Por Alessandra Leles Rocha
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Que bom! Os ipês já estão
floridos! Flores ao alcance da visão, mas será que a
Primavera terá o brilho e o odor de sempre?
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Razões não faltam para
tamanha inquietude. A poucos dias do início oficial da
Primavera, a estação das flores, dos frutos e da vida, e o
clima em nada combina com o momento. Sem chuvas, sob
altíssimas temperaturas e a umidade relativa do ar beirando
os limiares desérticos, a beleza do período parece de fato
ameaçada. É exaustão em demasia para a Natureza manter-se
plena e exuberante diante de nossos olhos. A festa tão
aguardada todos os anos tem o brilho um tanto quanto
ofuscado dessa vez.
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Tempo de renascer,
ressurgir em tons de alegria a vida, mas ao redor o cenário
não completa o processo. Efeitos da mudança climática que a
Natureza não se preocupa em responder com veemência, talvez
já exercitando sua capacidade adaptativa. A magnitude das
flores e folhas se renderão em breve a sobrevivência na
forma de espinhos ou florestas sucumbirão às paisagens
xeromórficas do sertão.
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Lamentemos resignados à
mudança dos ventos primaveris! O peso de nossas mãos e
consciência fez-nos perder gradativamente o belo, o puro e o
sagrado da vida. Erguemos machados e motosserras ao invés de
jardins, campos e matas. Então, como esperar pão se não
houve o plantio do trigo? Perdemos o direito a Primavera,
aquela lida, contada e vivida em tempos que já não existem.
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Chora, homem! Chora sua
estupidez! Afinal, não há Primavera com flores de plástico!
Quem sabe suas lágrimas reguem a aridez do solo e dêem
esperança as sementes perdidas! Quem sabe a Mãe Natureza
ainda se compadeça de vós e faça brotar a vida em flores. Se
nada disso acontecer, talvez lhe reste para o funeral apenas
a terra sobre o caixão e nada mais; já que as flores você
colheu antes do tempo ou se incumbiu de destruí-las em
semente. Ah! As lembranças de um planeta verde e vivo você
também levará para cumprir o rigor da punição de sua
consciência.
Alessandra
Leles Rocha
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